Quando eu ainda sabia ser criança
Eu não lembro exatamente quando deixei de ser criança.
Lembro de algumas coisas, mas não sei se foi ali.
Lembro de quando comecei a dizer “depois eu brinco”
e o depois nunca chegou.
De quando ganhei uma caixa de lápis nova
e, em vez de desenhar,
comecei a guardar os lápis para não gastar.
De quando alguém perguntou se eu estava chorando
e eu disse que não era nada.
Eu nem sabia o que era esse “nada”.
Lembro de aprender a não pedir para dormir na cama de alguém
quando eu estava com medo.
De aprender a fechar a porta do quarto
e resolver sozinho.
De começar a pensar duas vezes antes de dizer
“eu não gostei”,
“eu estou triste”,
“fica comigo”.
Talvez tenha sido aí.
Ou talvez tenha sido antes.
Talvez tenha sido na primeira vez em que ouvi
“você já é grande para isso”.
E eu acreditei.
Porque criança acredita nessas coisas.
Acredita quando dizem que já está grande demais para colo,
grande demais para chorar,
grande demais para ter medo do escuro.
E, sem perceber,
eu fui ficando grande demais para um monte de coisas
que ainda faziam bem para mim.
Hoje eu sei fazer coisas que o menino que eu fui
nem imaginava.
Sei cumprir prazos.
Sei responder “tudo bem?” mesmo quando não está.
Sei ficar acordado pensando em uma conversa
que já acabou há três horas.
Sei transformar cansaço em “eu só preciso me organizar melhor”.
Sei ser adulto.
Só não sei exatamente
em que momento isso virou sinônimo
de precisar de menos cuidado.
Foi por isso que eu quis perguntar às crianças.
Não o que elas acham que é saúde mental.
Isso seria pedir que elas explicassem
uma coisa que nós, adultos,
passamos anos tentando explicar.
Perguntei uma coisa mais simples:
“O que faz você se sentir bem?”
E talvez seja engraçado
que eu tenha perguntado isso a elas.
Porque eu achei que estava procurando respostas
para falar sobre crianças.
Mas foram elas que me lembraram de mim.
“Eu gosto quando minha mãe fica comigo no sofá, mesmo quando ela está mexendo no celular.”
“Quando meu pai chega e pergunta como foi meu dia de verdade.”
“Quando eu posso brincar sem ter que olhar a hora.”
“Quando meu amigo guarda lugar para mim.”
“Quando eu faço um desenho e minha professora coloca na parede.”
“Quando eu estou triste e minha vó não fica perguntando o que eu fiz.”
“Quando eu posso dormir na cama da minha mãe.”
“Quando ninguém briga comigo porque eu estou chorando.”
“Quando eu rio muito e minha barriga começa a doer.”
Eu fiquei pensando nessas respostas por um tempo.
Porque nenhuma delas falou sobre ser melhor.
Nenhuma falou sobre dar conta.
Nenhuma criança disse
“eu me sinto bem quando consigo resolver tudo sozinho”.
Elas falaram de colo.
De companhia.
De ter alguém que fica.
De poder brincar sem olhar para o relógio.
De ser ouvido sem precisar encontrar
as palavras certas para explicar o que sente.
E eu pensei em quantas vezes, depois de crescer,
eu comecei a fazer exatamente o contrário.
Quando estou triste, eu me escondo.
Quando estou cansado, eu continuo.
Quando preciso de alguém, eu penso
que estou incomodando.
Quando alguma coisa me faz feliz,
às vezes ainda me pergunto se não deveria estar fazendo algo mais importante.
Talvez seja isso que me assuste.
Eu não deixei de ser criança de uma vez.
Fui deixando aos poucos.
Um “não chora” aqui.
Um “você já é grande” ali.
Um “engole isso”.
Um “não faz drama”.
Até que um dia eu já sabia cuidar de todo mundo
e tinha esquecido como pedir para alguém cuidar de mim.
Hoje, quando penso no menino que eu fui,
não quero voltar no tempo.
Eu só queria encontrá-lo por cinco minutos.
Perguntar se ele está bem.
Perguntar do que ele tem medo.
Perguntar o que ele quer fazer hoje.
E, principalmente,
não dizer para ele que já está grande demais.
Porque talvez eu tenha entendido errado.
Talvez crescer não fosse deixar de precisar das coisas que me faziam bem.
Talvez crescer fosse aprender
a reconhecê-las de novo.
E, se eu pudesse dizer alguma coisa para aquele menino agora,
acho que seria simples.
Você não precisa parar de chorar para crescer.
Não precisa aprender a fazer tudo sozinho.
Não precisa fingir que está bem
só porque ninguém perguntou duas vezes.
E, quando alguma coisa fizer você se sentir bem,
não tenha vergonha de dizer.
Eu demorei anos para lembrar disso.
Mas você já sabia.
Quando eu ainda sabia ser criança.
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Simon Cantionilia tem 18 anos e é estudante de Relações Internacionais na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Foi membro do Juntô Jovem e hoje trabalha como consultor de comunicação no Juntô. Atua com juventude, saúde mental, políticas públicas e participação social.
Juntô Indica

Filme “Uptown Girls” (2003)
Dir.: Boaz Yakin
O filme acompanha Molly Gunn, uma jovem que, depois de perder o pai e precisar aprender a lidar com a vida adulta, acaba trabalhando como babá de Ray, uma menina de oito anos muito mais madura do que aparenta. A relação entre as duas revela, aos poucos, que crescer não significa necessariamente deixar a infância para trás, e que, às vezes, são as crianças que nos lembram de coisas que nós, adultos, esquecemos.
Uptown Girls conversa com a ideia de que crescer pode nos afastar de partes importantes de quem fomos, mas também mostra como a infância pode continuar existindo dentro da gente. É uma história sobre afeto, amadurecimento e sobre aprender que precisar dos outros não é uma fraqueza.
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13 de Outubro, 2026Você tem alguma história ou experiência inspiradora sobre saúde mental?
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