‘Procurando a sua turma’: adolescentes e os projetos coletivos
Grupos juvenis com interesses em comum provam como estar entre os pares ajuda na saúde mental da nova geração
Por Célia Fernanda Lima
Reportagem publicada originalmente no Lunetas, no dia 21 de agosto de 2026.
Aos 13 anos, Ryan diz não ter vergonha de subir em um palco e falar ao microfone. “Se for para falar sobre meio ambiente e a minha comunidade, eu vou falando mesmo”. Morador da comunidade rural do Brito, em Cascavel, interior do Ceará, o menino conta que sempre foi de falar muito, mas não tinha a oportunidade para trocar ideias com mais gente além dos poucos colegas da escola rural e dos três irmãos. “Desde que participei da Conferência para o Meio Ambiente e conheci o Coletivo Jovem, pude aprender com muitas pessoas e me expressar mais em público”, lembra.
Ele é um dos delegadinhos do Coletivo Jovem de Meio Ambiente do Ceará, uma mobilização infanto-juvenil vinculada a projetos do Ministério do Meio Ambiente. Ryan representa sua comunidade em reuniões e eventos, participa de decisões importantes para o grupo e compartilha experiência com pessoas da mesma idade e jovens mais velhos. “Assim como um bebê aprende com os pais o jeito de falar, sinto que, quando estou junto do coletivo, aprendo como falar e ensino também. Nosso legado é saber que jovem educa jovem”, afirma.
A autoconfiança de Ryan veio não só de uma razão para lutar, mas foi moldada com experiências dentro do coletivo. A coordenadora e mobilizadora do grupo, Bárbara Cruz, conta que, nas escolas em que o Coletivo Jovem atua, os estudantes mais interessados iniciam o caminho como delegadinhos, participando de reuniões e de comissões sobre meio ambiente.
Nesses encontros, Bárbara observa que, quanto mais se engajam, melhoram o rendimento dentro e fora de sala de aula. “Os adolescentes demonstram maior interesse pelos estudos, tornam-se mais participativos na escola e desenvolvem habilidades de liderança. O sentimento de pertencimento e de valorização faz com que eles se sintam motivados”, afirma.
Ela também percebe que os adolescentes mais tímidos ou inseguros para se expressar passam a se comunicar melhor e a defender suas ideias. “Eles ficam mais confiantes, ampliam os círculos de amizade, aprendem a trabalhar em equipe, desenvolvem empatia e convivem com pessoas de diferentes realidades e opiniões”, pontua.
Foi o caso de Valter Júnior, de Groaíras (CE), que desde os 13 anos participa do coletivo. Hoje, aos 26 anos, afirma que o principal aprendizado foi a socialização. “Ao longo desse caminho, aprendi muito mais do que questões ambientais. Aprendi sobre liderança, trabalho em equipe, mobilização social, escuta, diálogo e sobre entrega ao próximo.”
Outro participante é Jean Júnior, de Maracanaú (CE), que atualmente mobiliza outros meninos e meninas em escolas do estado. “Fazer parte do projeto transformou minha conscientização individual em ação coletiva. Ajudou no meu senso crítico e a entender que a educação ambiental é essencial desde a educação básica até a vida adulta”, diz.

Coletivo jovem reúne Valter, Jean e Bárbara, mobilizadores que atuam juntos desde a adolescência e reconhecem o impacto dessa convivência em suas trajetórias. Fonte: Arquivo pessoal.
Quando estar junto faz bem para a saúde mental
Os participantes do Coletivo Jovem demonstram que pertencer a um projeto com encontros regulares, tarefas conjuntas e um propósito traz benefícios para a infância e a adolescência. Estar junto com os pares é uma maneira positiva de estimular habilidades sociais, sobretudo em um cenário em que de 11 e 20% da população de 10 a 19 anos enfrenta algum transtorno mental no Brasil. Os dados são do relatório do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que mapeou pesquisas sobre saúde mental de crianças e adolescentes no país.
Em Manaus (AM), a estudante Isadora, de 17 anos, recorda a dificuldade em se aproximar de outras pessoas fora do círculo familiar. “Eu era mais tímida e tinha receio de conversar com pessoas novas. Participar de um projeto me ajudou a desenvolver mais confiança para me expressar e compartilhar minhas opiniões”, conta.
A adolescente faz parte do projeto Juntô Jovem, uma iniciativa brasileira de saúde mental de crianças e adolescentes, que reúne um comitê jovem para discutir e sugerir melhorias nas políticas públicas dessa área.
“Conhecer jovens de diferentes lugares e realidades, e ouvir suas histórias ampliou minha visão de mundo e sobre a saúde mental”, diz. “O Juntô me ajudou a me conhecer melhor, a compreender minhas emoções e a desenvolver um olhar mais atento e humano para mim mesma e para os outros.”
Atualmente, o comitê tem 11 adolescentes e jovens das cinco regiões do país. Coordenado pelo IEPS e pelo Child Mind Institute (CMI) — organização internacional de pesquisa e ações para a saúde mental de crianças e adolescentes —, o projeto é um dos exemplos de como a oportunidade de estar entre os pares é transformadora.
“Quando os adolescentes percebem que podem contribuir de forma concreta para transformar a realidade ao seu redor, deixam de ser apenas participantes e passam a se reconhecer como agentes de mudança.” Carolina Costa, gerente do Child Mind Institute
Daniel, de 20 anos, compartilha a experiência de fazer parte do Juntô, no Rio de Janeiro (RJ). “Aprendi a ter um olhar mais atento para todas as camadas que as pessoas apresentam, reconhecendo e acolhendo sua história, sua origem e toda a diversidade que uma vida pode ter.”
Esses aprendizados, segundo Carolina Costa, gerente nacional do CMI, confirmam como os coletivos são ferramentas eficazes no desenvolvimento psicossocial de quem está conhecendo o mundo. “É importante para os adolescentes terem relações afetivas que gerem sentimento de pertencimento. As atividades coletivas têm o potencial de reduzir o sentimento de isolamento e proporcionar ambientes nos quais eles se sentem compreendidos e aceitos”, diz.
Para ela, quando os jovens estão conectados, desenvolvem, sobretudo, autoconhecimento. “Somado a hábitos saudáveis e a boas condições de vida, o convívio em grupo ajuda a lidar com o estresse e a atravessar adversidades sem adoecer.”
Foi o que aconteceu com Isadora. Nos encontros presenciais e virtuais do comitê, ela aprendeu a conhecer seus colegas e seus próprios sentimentos. “Hoje consigo ouvir com mais atenção, acolher amigos quando precisam de apoio e perceber quando uma situação pode exigir ajuda profissional. Isso me ajudou dentro de casa, especialmente na convivência com meu irmão, tendo mais compreensão, empatia e sensibilidade diante de algumas situações.”
Permitir o protagonismo é a virada de chave
Um dos pontos principais para o bem estar nesses grupos é o empoderamento. Segundo Carolina Costa, quando os jovens se dão conta de que podem fazer parte de alguma transformação social, se entendem como protagonistas.
“Eles querem mais participação nas tomadas de decisão. As queixas mais frequentes são em torno da formação da própria identidade, sexualidade e decisões importantes como a faculdade”, explica. “Então, quando estão em grupo, trocando entre os pares, desenvolvem habilidades sociais e são encorajados a tomar decisões.”
Isadora confirma essa importância. “Quando temos a oportunidade de participar, percebemos que nossas vozes têm valor e que também podemos contribuir para a construção de soluções.”
No Coletivo Jovem do Ceará, Bárbara defende o mesmo e ressalta que a escuta cuidadosa é uma ferramenta certeira para criar conexões. “Queremos garantir que os adolescentes sejam protagonistas das transformações que desejam ver em suas comunidades. Por isso, buscamos criar espaços onde eles possam ser ouvidos, respeitados e reconhecidos como sujeitos de direitos.”
Valter, que cresceu entre as atividades coletivas, afirma que a maior lição é perceber a importância de estar junto. “Conviver com jovens de diferentes realidades me ensinou a compreender que ninguém cresce sozinho. Transformar o mundo começa pelas pequenas atitudes de cuidado, acolhimento e serviço.”

O Juntô é uma iniciativa do Child Mind Institute e reúne 11 jovens e adolescentes das cinco regiões do país em eventos presenciais e virtuais. Fonte: Camila Fortes/Juntô
A mobilização pode começar agora
Nem todos os meninos e meninas têm a oportunidade de estar em um grupo mobilizador. Os motivos para essa falta são diversos: dificuldades financeiras em manter os grupos, agendas corridas e pouca circulação de informações.
“Quando falamos de jovens, precisamos lembrar que eles estudam, trabalham, cuidam dos irmãos, enfrentam longos deslocamentos no transporte público e muitas vezes têm poucos recursos”, pontua Carolina Costa. Ela ressalta que, se um participante deixa o grupo, não significa falta de vontade ou de compromisso.
Além disso, para que os adolescentes encontrem seus pares, existe um caminho que pode ser mediado pelos adultos. Segundo Carolina Costa, a experiência no Child Mind Institute fez entender que é possível criar coletivos de acordo com a realidade de cada comunidade. Entenda os principais pontos:
Escuta ativa: crie espaços genuínos de escuta. Se os jovens sentem que suas opiniões não serão levadas a sério ou que as decisões já estão tomadas pelos adultos, perdem a vontade de participar.
Temas de interesse: projetos coletivos dão certo quando abordam questões que os jovens vivenciam no dia a dia, como saúde mental, meio ambiente, cultura, educação ou oportunidades para o futuro.
Referências: ver outros jovens participando, liderando iniciativas e gerando impacto costuma ser um dos maiores motivadores para que novos adolescentes se envolvam.
É importante lembrar que muitos coletivos não contam com financiamento do governo ou de organizações. Nesse contexto, Carolina sugere três pontos principais
Gestão descentralizada: as responsabilidades precisam ser compartilhadas entre os membros para não acumular apenas em uma pessoa. A sobrecarga pode desmotivar o participante a continuar no grupo.
Grupo ativo e aberto a novos participantes: os próprios membros podem mobilizar suas redes, convidar amigos e conhecidos e apresentar o coletivo para outras pessoas usando ferramentas digitais, com grupos no WhatsApp, um perfil no Instagram ou no TikTok. Isso permite manter o vínculo mesmo quando as pessoas não conseguem se encontrar presencialmente.
Gerar valor para quem participa: As pessoas precisam enxergar sentido naquele espaço, seja porque encontram pertencimento, porque têm voz, porque aprendem alguma coisa, porque conseguem transformar uma realidade ou porque constroem relações importantes.
Juntô na Mídia
21 de Agosto, 2026Queremos saber
sua opinião
Conte pra gente que temas você gostaria de ver no nosso site