Pressão estética, moda e saúde mental: entre a expressão e a necessidade de pertencer
Costumamos tratar a moda como um assunto simples ou, por vezes, dispensável. Basta alguém demonstrar interesse por roupas, tendências ou estilo para surgir a velha ideia de que existem temas “mais importantes”. Na minha visão, esse é um erro. A moda nunca foi apenas sobre roupas. Ela é uma forma de comunicação e, justamente por isso, tem uma influência significativa sobre a maneira como nos enxergamos e como nos relacionamos com o mundo. Por isso, ela tem uma relação direta com o nosso bem estar psíquico.
Não acredito que a moda seja a responsável pelos problemas de saúde mental que vemos crescer atualmente. O problema está na forma como ela vem sendo consumida e apresentada. Em uma sociedade marcada pelas redes sociais, vestir-se deixou de ser apenas uma escolha pessoal e passou a ser, muitas vezes, uma busca incessante por aprovação. Somos incentivados a parecer perfeitos o tempo todo: usar a roupa certa, seguir a tendência do momento e transmitir uma imagem de sucesso, mesmo quando a realidade é bem diferente.
Essa lógica tem um custo emocional. Quando a aparência se torna um critério para medir valor pessoal, a comparação passa a fazer parte da rotina. Aos poucos, muitas pessoas deixam de escolher roupas que as representam para vestir aquilo que acreditam que será aceito pelos outros. O resultado é um sentimento constante de insuficiência, como se nunca fôssemos bonitos, modernos ou interessantes o bastante.
“A moda teria um peso menor na vida de todos se fosse vista com mais liberdade e menos com necessidade de pertencer a um certo grupo/estilo”.
Além dos impactos emocionais, existe também a pressão financeira criada pela indústria da moda. As tendências mudam rapidamente e muitas pessoas sentem que precisam comprar roupas novas ou investir em marcas caras para serem aceitas dentro de determinados grupos ou espaços. Entre adolescentes e jovens, essa cobrança pode gerar ansiedade, frustração e até dificuldades financeiras. A moda jamais deveria ser um motivo para endividamento ou uma medida do valor de uma pessoa. O preço de uma roupa não determina o caráter, a inteligência ou a importância de ninguém.
E essa realidade aparece nas experiências de muitos jovens. Maria Julia, de 14 anos, moradora de Sergipe, conta: “Às vezes eu sinto que todo mundo na escola tem roupas mais bonitas do que as minhas. Quando eu não posso comprar as marcas que estão na moda, fico com a sensação de que não pertenço ao grupo, mesmo sabendo que roupa não define quem eu sou.” Seu relato mostra como a autoestima pode ser afetada desde cedo pela pressão de acompanhar tendências.
O mesmo acontece com Murilo Silva, jovem do Paraná, de 19 anos. Ele relata: “As redes sociais fazem parecer que você precisa ter o tênis mais novo ou a roupa mais cara para ser notado. Durante um tempo, achei que precisava comprar coisas para impressionar as pessoas. Depois percebi que estava gastando dinheiro tentando agradar quem nem fazia parte da minha vida.” Sua experiência revela que a pressão para se encaixar continua presente na juventude, apenas assumindo novas formas.
Ao mesmo tempo, seria injusto culpar a moda por esse cenário. A moda também pode ser uma forma de liberdade. Escolher uma roupa que reflita nossa personalidade, nossa história e nossos gostos pode fortalecer a autoestima e proporcionar segurança. Há dias em que nos sentimos mais confiantes simplesmente porque estamos usando algo que nos faz bem. Isso não é vaidade exagerada; é uma forma de expressar identidade.
Por isso, acredito que o debate não deveria ser sobre abandonar a moda, mas sobre ressignificá-la. Precisamos aprender a consumir menos padrões e mais autenticidade. Precisamos entender que vestir-se bem não significa seguir todas as tendências, e sim sentir-se confortável na própria pele. Quando a moda deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma escolha, ela deixa de alimentar a ansiedade e passa a contribuir para o bem-estar.
Talvez a pergunta mais importante não seja “o que está na moda?”, mas “para quem estou me vestindo?”. Se a resposta for apenas para agradar aos outros, vale a pena repensar essa relação. Afinal, nenhuma tendência deveria valer mais do que a nossa saúde mental.
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Simon Cantionilia é de Aracajú (SE), tem 18 anos e está cursando Relações Internacionais na UFS. Foi membro do Juntô Jovem e hoje trabalha como consultor de comunicação no Juntô.
Artigos, Nossas Vozes
12 de Agosto, 2026Você tem alguma história ou experiência inspiradora sobre saúde mental?
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