Muito jovem para ter tudo resolvido: uma conversa sobre apoio entre pares e a coragem de pedir ajuda para lidar com a saúde mental no início da vida adulta

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2 de Julho, 2026
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Aos 20 anos, Rhenan Batista trabalha para pagar os boletos da vida universitária longe dos pais, enquanto aprende a lidar com os desafios de saúde mental buscando todo o apoio possível. Por Julio Cruz Neto
"A gente deveria normalizar esse suporte emocional, entender que o jovem não precisa enfrentar tudo isso sozinho." Aos 20 anos, Rhenan Cauê Barbosa Batista conta como a transição para a vida adulta, marcada por trabalho, estudos e independência financeira, afeta sua saúde mental.

Rhenan Cauê Barbosa Batista gostaria de ter estudado Medicina, mas como a mensalidade não cabia no bolso, decidiu cursar Odontologia e arrumou estágio na área administrativa da própria instituição – Unitpac (Centro Universitário Tocantinense Presidente Antônio Carlos) –  para poder se sustentar sem depender dos pais, que vivem em outra cidade.

Estamos falando de um jovem de 20 anos que não estuda exatamente o que gostaria e não dispõe de todo o tempo necessário para se dedicar aos estudos porque gosta de trabalhar e assim não pesar no orçamento familiar, dois pontos cruciais da transição para a vida adulta, que representam desafios para sua saúde mental.

É esse o foco da conversa que tivemos com ele por videochamada, cujos principais pontos você lê abaixo.

 

Quais são os principais desafios da sua transição para a vida adulta?

Para mim, tudo roda, roda e cai num boleto. Acho que tudo é muito voltado a dinheiro hoje em dia, sabe? Pagar, pagar… Nessa vida universitária, a maior transição para a vida adulta é o choque de ver o quanto a gente gasta, ter a dimensão de como um adulto vive com um salário mínimo pagando aluguel, água, energia…

Você tem origem humilde?

Meu padrasto, que considero como pai porque me criou, e minha mãe são professores. A gente sempre morou na roça, sou um menino do mato. A gente não tem uma condição ruim, mas eu não gosto de depender, sabe? Desde meus 17 anos, sempre procurei entrar em projetos que dessem bolsa, uma renda para ajudar nas despesas de casa. Essa faculdade que eu faço é particular, entrei pagando a mensalidade de 2 mil e poucos reais. Eu achava muito dinheiro, aí consegui entrar no Prouni com bolsa integral. Mas tem o aluguel, as despesas da casa. Tem um ano e meio que eu moro sozinho aqui em Araguaína (TO) e eu tive todo esse tipo de dificuldade, que é sair debaixo do teto dos pais e morar sozinho.

Lidar com esses desafios por conta própria impacta sua saúde mental?

Impacta bastante, porque você está chega totalmente no escuro. Não tem mais a sua mãe pra falar “faz assim que você consegue realizar tal coisa”. Eu não gosto de depender, então sempre busco me manter ao máximo. Só peço ajuda financeira pros meus pais quando realmente tá pegado, sabe? Minha mãe não queria que eu trabalhasse. Mas eu falei que não consigo ficar aqui sem fazer nada, só estudando. Então procurei um trabalho. Aí tem dia que eu chego em casa cansado e priorizo meu sono em vez de estudar. E vem o questionamento: “Poxa, meus pais se dedicam tanto e eu estou aqui dormindo em vez estudar”.

Você acha que a autocobrança e o sentimento de culpa são os principais componentes desses desafios para sua saúde mental?

Isso: cobrança e inseguranças também, porque a gente começa a lidar com algumas responsabilidades bem maiores, como faculdade, trabalho, decisões sobre o futuro… A gente não escolhe a faculdade por algo que realmente quer. Se eu fosse escolher, eu estaria fazendo Medicina, mas eu não passei na pública e a privada custa 12.000 reais por mês. Meus pais não teriam condição de pagar. Então, esse tipo de decisão, que é partir para o plano B, já é uma grande responsabilidade e pode afetar a saúde mental, porque existe a pressão social de ser muito forte, de que vai dar certo e não pode ser vulnerável, ter sentimentos.

A pressão vem só da sociedade ou também da gente mesmo?

Eu acho que é da sociedade. Porque você precisa estar ali, assumir uma postura de mostrar maturidade o tempo todo. E eu não me considero, com 20 anos de idade, uma pessoa madura o suficiente para conseguir lidar com todas as barreiras, as pedras que no caminho eu encontro. Preciso mostrar pros outros que eu tenho esse tipo de maturidade, mas por dentro não é assim. A gente fica emocionalmente abalado, chora em casa, então é algo que afeta muito a saúde mental da gente.

Nessa mesma sociedade que pressiona, você conseguiu encontrar algum elemento de apoio em saúde mental, seja no poder público, nas ONGs, nas pessoas?

O apoio emocional que eu encontro aqui na maioria das vezes são os amigos de faculdade que estão na mesma situação, que vieram de outra cidade, que enfrentam as mesmas dificuldades. A gente compartilha experiências, emoções, já é um apoio muito grande. E aqui na faculdade a gente tem psicólogo para os alunos, então a gente utiliza bastante esse serviço.

Sobre os amigos, você sente que eles têm preparo e disposição para falar sobre saúde mental?

Hoje em dia, sim. Pelo menos no meu ciclo de amigos. Quando alguém está ruim, precisa conversar, passa uma mensagem e chama: “Passa aqui em casa”. Aí a gente passa horas conversando. Eu já fiz isso muitas vezes, de chamar alguém para conversar e sentar na calçada, na varanda, jogar conversa fora, só para distrair. Hoje em dia é tudo muito à flor da pele, sabe? Internet, TikTok, tudo muito superficial. Então, ter esse tipo de amizade, com quem se importa com os sentimentos do outro, com quem controla o que fala porque sabe que pode machucar o colega, é muito bom pra mim.

Você mencionou os psicólogos disponíveis na faculdade. Você já esteve com eles, e por que motivo?

Já. Procurei para desabafar sobre essa transição para a vida adulta e buscar orientação emocional, porque ninguém está pronto o suficiente para a vida adulta, ninguém nasce pronto para assumir responsabilidades tão grandes. A gente começa no básico, daí cresce emocionalmente e o amadurecer envolve errar. Então, precisa aprender a mudar de ideia, recomeçar, quebrar a cara e começar de novo. A gente deveria normalizar esse suporte emocional, entender que o jovem não precisa enfrentar tudo isso sozinho. E além dos profissionais, a gente pode compartilhar com outros jovens. Por exemplo, no Juntô, ninguém tem formação em saúde mental, mas a gente debate sobre esse assunto, porque a gente tem um certo lugar de fala, uma certa história com esse tema.

Os atendimentos psicológicos são esporádicos ou é um processo psicoterapêutico constante?

Esporádicos. Fiz umas duas sessões durante esse ano e meio, quando realmente precisava desabafar.

Já buscou algum outro tipo de ajuda, com psiquiatra ou no SUS?

Não, mas sou usuário do SUS com muita frequência e pude testemunhar a importância que é ter uma equipe disponibilizada para cuidar da saúde mental da comunidade, ter um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), entre outros serviços.

Algum caso específico que você tenha testemunhado?

Já vi muitas pessoas agradecerem a um psicólogo ou a um psiquiatra que mudou suas vidas com uma consulta, uma conversa, aquele serviço totalmente gratuito, que oferece algo pelo qual elas não poderiam pagar. Pessoas com uma saúde mental muito agravada, ou mesmo pensamentos suicidas.

E sobre o Juntô? O fato de participar desse conselho jovem, de estar imerso nesse ambiente de cuidados com saúde mental, teve algum impacto na sua vida, na maneira como você lida com a sua própria saúde mental?

O Juntô é minha válvula de escape, uma iluminação. Conversar com outros jovens que passam pelas mesmas situações ou ver que outros jovens também conseguem debater sobre isso sem ter uma formação profissional, acadêmica, é muito bom para mim, porque eu consigo falar das minhas experiências e também aprender muito.

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