Mandamento para lidar com autismo: não tomar o nome da ciência em vão
(Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo, em 2 de abril de 2026; acesso exclusivo para assinantes)
Nas últimas décadas, o autismo passou de um diagnóstico raro para uma condição comum, conhecida por todos, que pode trazer sofrimento e incapacidade, mas também habilidades impressionantes, criatividade e alegria. O autismo ilustra a complexidade do cérebro e da mente humana, e o quanto estamos longe de desvendar seus mistérios.
Devido ao esforço de associações de familiares e pesquisadores, um vasto conhecimento foi alcançado. A pesquisa validou o sofrimento de muitos, iluminou o diagnóstico daqueles que antes se sentiam “defeituosos”, trouxe formas inovadoras de acolher, tratar e incluir. Mas o método científico tem sido usado de forma equivocada e muitas vezes mal-intencionada, levando famílias e a sociedade a gastos enormes, confusão e frustração.
O volume de informações falsas sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) na internet cresceu mais de 15.000% entre 2019 e 2024 na América Latina e no Caribe, numa marcha de insensatez liderada pelo Brasil, que tem 2,4 milhões de diagnosticados (1,2% da população). Um estudo, parceria da FGV com a associação Autistas Brasil, identificou 150 causas falsas relacionadas ao TEA, dentre as quais o consumo de salgadinhos, a aplicação de vacinas e infecções parasitárias.
Em tempos de velocidade supersônica na veiculação de informações, pseudoespecialistas buscam o lucro oferecendo tratamentos absurdos, como dietas milagrosas e desparasitação, embrulhados em estudos científicos que prometem ser revolucionários, mas são falsos ou muito mal realizados. Em outras situações, o estudo existe e é sério, a base para um novo tratamento faz sentido, mas um longo caminho ainda precisa ser trilhado para que possa ser indicado com responsabilidade.
O exemplo mais recente é a leucoverina (ácido folínico), que ganhou ainda mais adesão com o anúncio infundado de que ingerir Tylenol na gravidez causaria autismo no feto. Há evidências que relacionam o metabolismo do folato a problemas do neurodesenvolvimento e estudos indicando melhora em sintomas de autismo com a suplementação de ácido folínico. Mas é relativamente fácil identificar problemas metodológicos e falta de relevância clínica. Não à toa o maior estudo sobre o tema foi retirado de circulação. Ou seja, o problema também está nos pesquisadores, que talvez forjem resultados ou não sejam rigorosos o suficiente, e nas revistas que publicam estudos com pouco escrutínio.
A contenda pode ficar ainda mais sensível quando olhamos para o sistema judiciário. Empáticos com o sofrimento das famílias, mas enganados pela pseudociência, ou por ciência de valor sendo usada de má-fé, magistrados garantem acesso a tratamentos caros e ineficazes, gerando um custo enorme ao erário sem benefício real.
O debate é cheio de variáveis, o que reforça a necessidade de respeitar os trâmites das pesquisas científicas. A pressa das famílias na busca por alento é compreensível, principalmente para aquelas que vivem em situações-limite, com familiares autistas com muitos problemas de comportamento e incapazes.
A intervenção precoce, fundamental para o desenvolvimento de habilidades e autoestima, precisa estar baseada em evidências confiáveis, obtidas junto a profissionais credenciados. Serviços e tratamentos baseados em valor devem passar a fazer parte do mundo do autismo e ser acessíveis a todos.
Mas os dados de que precisamos também estão dentro de casa, bem diante dos nossos olhos. Observar a criança com atenção permite identificar os pontos fortes e as áreas em que precisa de apoio. Mais do que tudo, é preciso equilibrar expectativas e celebrar as conquistas e as formas próprias de expressão de cada um.
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Guilherme V. Polanczyk, médico, é professor livre-docente em psiquiatria da infância e adolescência da Faculdade de Medicina da USP e vice-presidente da International Association for Child and Adolescent Psychiatry and Allied Professions (Iacapap)
Julio Cruz Neto, jornalista, é consultor de comunicação no Juntô, iniciativa brasileira do Global Center da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes no Child Mind Institute
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