Liturgia da Idade que Não Chegou
Eu acho que ninguém me avisou
que crescer também podia ser uma espécie de luto.
Não houve sino.
Nenhuma porta se abriu solenemente,
nenhum anjo desceu para dizer:
“agora você é adulto.”
Foi mais silencioso que isso.
Um dia eu era jovem
e, no outro, já sabia que precisava saber.
Precisava saber voltar para casa,
saber fazer comida quando a fome chegasse,
saber lavar a própria roupa,
varrer o chão, pagar alguma coisa,
organizar o que ninguém mais organizaria,
pegar uma estrada sozinho
e fingir que não havia medo
porque o medo, aparentemente,
também era uma coisa que eu deveria aprender a carregar.
E talvez seja isso que mais me confunda: eu não sei exatamente quando deixei de ser criança.
Não porque a infância tenha durado demais,
mas porque, em algum lugar entre uma responsabilidade e outra,
ela simplesmente não teve tempo de terminar.
Minha adolescência não foi uma ponte. Foi uma porta que eu atravessei carregando caixas. Enquanto outros aprendiam a crescer
como quem descobre lentamente o próprio corpo,
eu aprendia o peso das coisas.
O peso de uma casa.
O peso de uma escolha.
O peso de uma ausência.
O peso de saber que, se eu não fizesse,
talvez ninguém fizesse.
E havia algo quase religioso nisso.
Como se a vida tivesse colocado sobre meus ombros
um pequeno altar invisível
e me ensinado, desde cedo,
que algumas coisas só continuam existindo
porque alguém se ajoelha diante delas
e cuida.
Então eu cuidei.
Cuidei daquilo que precisava ser cuidado.
Aprendi a sobreviver aos pequenos incêndios domésticos.
Aprendi que uma pia cheia também pode ser uma oração,
que roupa estendida no varal
é uma espécie de bandeira branca contra o caos,
que cozinhar para si mesmo
é uma forma humilde de dizer:
eu ainda estou aqui.
E talvez viajar sozinho tenha sido uma das minhas primeiras liturgias.
Eu, uma mala,
uma passagem,
um destino escrito em algum lugar
e aquela sensação estranha
de que ninguém viria me buscar se eu errasse.
Há uma solidão muito particular
em descobrir que você consegue ir embora sozinho.
Porque, quando você percebe que consegue partir,
também percebe que não existe mais ninguém
para atravessar a porta por você.
E foi assim que eu cresci:
não em aniversários,
mas em pequenas revelações.
Descobri que ser adulto
não é saber exatamente o que fazer.
É aprender a fazer alguma coisa
mesmo quando ninguém explicou.
É olhar para uma conta,
para uma casa,
para uma estrada,
para uma decisão,
e dizer baixinho:
“Deus, eu não sei.”
E continuar.
Talvez essa seja a oração mais honesta da juventude. Porque eu ainda sou jovem.
Ainda existe em mim alguém
que gostaria de ser cuidado sem precisar pedir,
que às vezes deseja chegar em casa
e encontrar tudo pronto,
que queria poder errar
sem que o erro tivesse consequências tão grandes.
Existe em mim uma criança
que ainda olha para o mundo
esperando que algum adulto apareça.
Mas o problema
e talvez também o milagre
é que, quando olho ao redor,
percebo que esse adulto sou eu.
E isso às vezes dói.
Dói porque ninguém deveria precisar
se tornar abrigo tão cedo.
Dói porque há pessoas que chegam à vida adulta
depois de terem sido adolescentes.
E há pessoas que chegam à vida adulta
depois de terem sido necessárias.
Eu talvez seja uma delas.
E não sei se quero chamar isso de força.
Porque força é uma palavra bonita
para aquilo que muitas vezes
foi apenas falta de escolha.
Mas existe beleza, sim.
Existe uma beleza quase sagrada
em olhar para trás
e perceber que eu fiz morada em mim mesmo.
Que, quando não havia manual,
eu inventei instruções.
Que, quando não havia certeza,
eu caminhei.
Que, quando a vida exigiu maturidade
antes da hora,
eu entreguei o que tinha.
Não perfeito.
Não pronto.
Mas inteiro.
Talvez seja por isso que hoje
eu não queira apenas aprender a ser adulto.
Quero aprender a ser jovem também.
Quero descobrir o que existe em mim
além daquilo que eu precisei suportar.
Quero rir sem transformar tudo em responsabilidade.
Quero errar sem transformar o erro em culpa.
Quero viajar sem que toda partida pareça uma prova de independência.
Quero entrar numa casa limpa
e, por alguns minutos,
não perguntar quem vai cuidar dela depois.
Quero, talvez, descansar.
Porque talvez crescer não seja abandonar a criança
que fomos.
Talvez seja finalmente voltar para buscá-la.
Sentar ao lado dela.
Dizer:
“Você não precisava saber de tudo.”
“Você não precisava ser forte o tempo inteiro.”
“Você podia ter sido só jovem.”
E então, com alguma delicadeza,
pegar sua mão.
Porque há transições que não acontecem diante dos nossos olhos.
Há idades que não chegam.
Há versões nossas que ficam pelo caminho
esperando uma despedida que nunca receberam.
E talvez amadurecer, no fim,
seja isso:
não celebrar o momento em que nos tornamos adultos,
mas fazer uma espécie de funeral
para tudo aquilo que tivemos de deixar para trás
sem sequer saber que estávamos perdendo.
Acender uma vela para o adolescente que fomos.
Para a criança que teve pressa.
Para o jovem que aprendeu cedo demais
a resolver a própria vida.
E depois apagar a vela.
Não como quem esquece.
Mas como quem finalmente entende
que sobreviver também foi uma forma de chegar.
E que, mesmo sem sino,
sem anúncio,
sem passagem sagrada,
eu atravessei.
Não sei quando.
Não sei exatamente como.
Só sei que, um dia,
olhei para as minhas próprias mãos
e elas já sabiam fazer coisas
que eu nunca tinha aprendido a ensinar.
Foi então que percebi:
eu não me tornei adulto.
A vida me chamou pelo nome e eu respondi.
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Simon Cantionilia é de Aracajú (SE), tem 18 anos e está cursando Relações Internacionais na UFS. Foi membro do Juntô Jovem e hoje trabalha como consultor de comunicação no Juntô.
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9 de Setembro, 2026Você tem alguma história ou experiência inspiradora sobre saúde mental?
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