Situações de controle, medo ou agressões dentro de casa
Este guia foi preparado para todos aqueles que cuidam de crianças e adolescentes e que se preocupam com a saúde mental deles. Seja você mãe, pai, avó, avô, tio, tia, madrinha, padrinho ou qualquer outra pessoa que exerça o papel de cuidador, aqui você encontrará informações acessíveis e úteis para apoiar aqueles que estão crescendo sob seus cuidados.
A violência doméstica é um problema sério que pode ocorrer em todas as configurações familiares. Ela acontece quando uma pessoa utiliza poder e controle de forma abusiva para intimidar, prejudicar ou limitar a autonomia da outra. Isso pode acontecer com qualquer pessoa, independentemente da idade, raça ou condição financeira.
A violência doméstica não se resume a agressões físicas. Ela pode incluir comportamentos que causam dano físico, emocional ou psicológico, como empurrar, bater, humilhar, ameaçar ou intimidar alguém. Também pode envolver formas abusivas de controle, como restringir o acesso a dinheiro, isolar a pessoa de amigos e familiares ou invadir sua privacidade de maneira excessiva e sem justificativa. Essas situações se diferenciam de práticas de cuidado, supervisão ou proteção, especialmente no caso de crianças e adolescentes, quando têm como objetivo garantir seu bem-estar e segurança.
É importante que os responsáveis conheçam a violência doméstica para que possam ajudar a proteger crianças, adolescentes e outras pessoas, e para reconhecer sinais que muitas vezes podem ficar escondidos.
Compreendendo a violência doméstica
A violência doméstica acontece dentro de casa ou no convívio familiar e envolve comportamentos que causam dor, medo ou controle sobre outra pessoa. Ela pode ocorrer entre parceiros, entre pais e filhos ou entre outros membros da família, e nunca é justificável.
No caso de crianças e adolescentes, é importante considerar que eles estão em desenvolvimento e dependem de adultos para cuidado, proteção e orientação. Por isso, situações de violência doméstica frequentemente envolvem um desequilíbrio de poder e podem ser mais difíceis de identificar.
Cuidar também envolve orientar, colocar limites e supervisionar. No entanto, essas ações deixam de ser cuidado quando passam a causar medo, humilhação, sofrimento constante ou prejudicam o desenvolvimento saudável.
Algumas formas de violência doméstica incluem:
- Abuso físico. Ocorre quando há uso de força para machucar, como bater, chutar, empurrar ou agredir com objetos. Em crianças e adolescentes, também inclui situações como prender a criança em um cômodo, impedir que ela peça ajuda ou negar cuidados médicos após uma agressão.
- Abuso emocional. Envolve palavras ou atitudes que fazem a pessoa se sentir sem valor, com medo ou insegura, como xingamentos, humilhações, ameaças ou críticas constantes. Em crianças e adolescentes, pode afetar diretamente a autoestima e o desenvolvimento emocional, fazendo com que se sintam culpados, inadequados ou constantemente com medo.
- Controle excessivo. Refere-se a tentativas de controlar o que a outra pessoa faz, com quem se relaciona ou para onde vai. Em crianças e adolescentes, isso se torna violência quando há invasão constante de privacidade sem explicação, isolamento de amigos ou familiares, ou imposição de regras rígidas que geram medo ou sofrimento — indo além da supervisão necessária ao cuidado.
- Abuso financeiro. Ocorre quando o dinheiro é usado de forma abusiva para controlar alguém, como impedir acesso a recursos, trabalho ou decisões financeiras. Em contextos familiares, isso geralmente acontece entre adultos, mas pode impactar diretamente crianças e adolescentes ao comprometer seu acesso a necessidades básicas, como alimentação, educação e saúde.
- Ameaças e intimidação. Incluem comportamentos que causam medo, como ameaças verbais, gestos agressivos ou dizer que algo ruim vai acontecer caso a pessoa não faça o que está sendo demandado. Em crianças e adolescentes, isso pode gerar medo constante e insegurança dentro do próprio ambiente familiar.
- Abuso sexual. É qualquer comportamento de natureza sexual que ocorre sem consentimento ou que não é apropriado para a idade. Isso pode incluir não apenas relações sexuais, mas também tocar partes íntimas, pedir ou forçar contato físico, expor a criança ou adolescente a conteúdos ou situações sexuais, ou fazer com que participe dessas situações.
Quando devo me preocupar?
Pode ser difícil saber se alguém está sofrendo violência doméstica. Muitas vezes, as pessoas tentam esconder. Aqui estão alguns sinais que você pode observar em uma criança ou um adulto.
Sinais em crianças
- Mudanças de comportamento. Elas podem ficar mais tristes, irritadas, quietas ou assustadas do que o normal. Também podem perder interesse em atividades que antes gostavam.
- Dificuldade para dormir ou pesadelos. Elas podem ter pesadelos, dificuldades para dormir ou medo de dormir sozinhas.
- Comportamento agressivo. Elas podem se envolver em brigas com mais frequência, ter problemas na escola ou não obedecer às regras.
- Sinais físicos. Elas podem ter hematomas ou ferimentos que não conseguem explicar.
- Susto, nervosismo. Elas podem parecer assustadas com barulhos altos ou movimentos bruscos.
- Repetição de comportamentos agressivos. Elas podem bater ou intimidar outras crianças.
- Preocupação excessiva com um dos pais ou responsável. Elas podem parecer excessivamente ansiosas em relação à segurança ou ao humor de um dos pais ou cuidadores.
- Sinais relacionados a possíveis situações de abuso sexual. Podem apresentar conhecimento ou comportamentos sexuais não esperados para a idade, evitar determinadas pessoas ou lugares, demonstrar desconforto com contato físico, ou mudanças marcantes de humor após estar com alguém específico. Em alguns casos, podem surgir queixas físicas, como dor ou desconforto em regiões íntimas.
Sinais em adultos (cuidadores e responsáveis)
Embora este guia tenha como foco crianças e adolescentes, é importante reconhecer sinais de violência doméstica em adultos responsáveis por elas. Situações de violência entre cuidadores podem impactar diretamente o bem-estar, a segurança e o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
- Lesões inexplicáveis. Podem apresentar hematomas, cortes ou outras lesões e dar explicações vagas.
- Afastamento de amigos e familiares. Podem parar de ver pessoas com quem costumavam gostar de passar tempo.
- Aparente medo do parceiro. Podem ser muito cautelosos com o que dizem ou fazem perto do parceiro.
- Controle pelo parceiro. O parceiro pode monitorar excessivamente o celular, impor decisões ou controlar recursos de forma abusiva.
- Baixa autoestima. Podem falar mal de si mesmos ou se sentir sem valor.
- Mudanças de comportamento ou humor. Podem parecer mais ansiosos, deprimidos ou menos confiantes do que antes.
- Justificativas para o comportamento do parceiro. Podem dizer coisas como: “A culpa é minha” ou “Ele/Ela não fez por mal”.
- Dificuldade de tomar decisões. Podem demonstrar insegurança ou sentir que precisam da autorização do parceiro para agir.
- Medo de falar sobre a própria vida. Podem evitar compartilhar o que acontece em casa, por medo, vergonha ou receio de consequências.
- Sinais relacionados a possíveis situações de abuso sexual. Podem demonstrar desconforto com proximidade física, evitar certos temas ou pessoas, apresentar mudanças bruscas de humor ou comportamento após interações específicas, ou expressar medo ou constrangimento em relação ao parceiro.
O que posso fazer para ajudar?
Se você está preocupado(a) que uma criança ou adolescente, ou um cuidador, possa estar em uma situação de violência doméstica, é importante agir com cuidado e responsabilidade. Aqui estão algumas formas de ajudar:
- Escute com atenção e sem julgamento.
- Se uma criança, adolescente ou adulto compartilhar algo, leve a sério. Mostre que você acredita no que foi dito e que aquela pessoa não está sozinha.
- Reforce que a violência não é culpa da vítima.
- Ajude a criança, adolescente ou cuidador a entender que todos merecem segurança, respeito e proteção.
- Priorize a segurança da criança e do adolescente.
- Observe sinais de risco e, se necessário, procure ajuda imediata. Em situações de perigo, acione serviços de emergência ou proteção.
- Apoie o cuidador não violento.
- Se houver um adulto de referência que também esteja em situação de vulnerabilidade, ofereça apoio para que ele possa proteger a si e à criança, sem julgamentos.
- Busque orientação e recursos especializados.
- Procure serviços de proteção à criança e ao adolescente, conselhos tutelares, escolas ou profissionais de saúde. Você também pode ajudar a pessoa a acessar esses recursos.
- Ajude a pensar em estratégias de proteção.
- Quando apropriado, apoie na identificação de adultos de confiança, locais seguros e formas de pedir ajuda.
- Respeite o tempo, mas não ignore riscos.
- Mudanças podem levar tempo, mas situações que envolvem risco para a criança ou adolescente devem ser levadas a sério e encaminhadas.
Apoiar alguém em situação de violência pode ser difícil, mas com ajuda esse processo pode ser menos difícil. Procure orientação e apoio para você, se necessário.
Que tipo de apoio profissional devo buscar?
Se você ou alguém da sua família estiver vivendo uma situação de violência, buscar ajuda é o primeiro passo.
Se houver risco imediato, procure ajuda emergencial pelo telefone 190 (Polícia Militar). Em casos de violência contra a mulher, a Central de Atendimento Ligue 180 oferece orientação gratuita e confidencial.
Você pode começar buscando apoio na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Profissionais de saúde podem acolher, registrar a situação de forma sigilosa e encaminhar para serviços especializados, como psicologia, assistência social ou atendimento jurídico, quando necessário.
É possível buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode incluir acompanhamento psicológico para adultos e crianças que tenham sido expostos à violência, além de orientação sobre medidas de proteção.
Outras formas de apoio disponíveis incluem:
Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM): oferecem registro de ocorrência e orientação sobre medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha.
Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e CREAS: oferecem acompanhamento social, orientação e encaminhamentos para a rede de proteção.
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): oferecem atendimento em saúde mental para pessoas em sofrimento psíquico.
Defensoria Pública: pode orientar sobre direitos legais, guarda de filhos e medidas protetivas, gratuitamente.
Conselho Tutelar: atua na proteção dos direitos de crianças e adolescentes e pode ser acionado em casos de violência, negligência ou outras situações de risco.
Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DECA): atende casos de violência envolvendo crianças e adolescentes, com encaminhamento e investigação adequados.
Profissionais da saúde, assistência social e justiça podem apoiar tanto a pessoa que sofre violência quanto os cuidadores responsáveis por proteger crianças e adolescentes. O acompanhamento ajuda a fortalecer a segurança, reconstruir a autonomia e interromper o ciclo de violência.
Onde encontrar
mais informações
Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.
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