Uso intenso de jogos digitais e dificuldades para desconectar
Muitos jovens hoje em dia usam computadores, celulares e jogam videogames. Em alguns jogos digitais, existem sistemas que incentivam a compra de itens, moedas virtuais, pacotes surpresa ou recursos extras para avançar mais rápido ou personalizar a experiência de jogo.
Os jovens estão tendo contato com essas experiências cada vez mais cedo. Isso exige atenção, porque seus cérebros ainda estão em desenvolvimento, e eles podem ter mais dificuldade para compreender limites, controlar impulsos e perceber os impactos do uso excessivo de dinheiro ou tempo nessas atividades.
Em alguns casos, isso pode levar a comportamentos compulsivos, quando a pessoa sente dificuldade para parar ou controlar o quanto joga, compra ou passa tempo nessas plataformas, mesmo quando isso começa a trazer prejuízos para sua rotina, relações ou bem-estar.
Por isso, é importante que responsáveis acompanhem o uso de jogos digitais por crianças e adolescentes, conversem sobre consumo consciente e ajudem a construir hábitos saudáveis no ambiente online.
O que é típico?
É comum que crianças e adolescentes usem dispositivos digitais e joguem. À medida que crescem, aprendem sobre o mundo, incluindo dinheiro e riscos.
Compreender como as crianças geralmente se desenvolvem pode ajudar a identificar problemas com jogos digitais.
Eis o que você pode observar em diferentes faixas etárias:
- De 3 a 5 anos: As crianças podem jogar jogos simples em tablets ou celulares. Elas ainda não entendem realmente o conceito de ganhar, perder ou o dinheiro envolvido em alguns jogos.
- De 6 a 9 anos: As crianças jogam mais jogos online. Alguns jogos podem pedir que elas comprem coisas. Elas começam a aprender sobre dinheiro, mas podem não perceber o perigo de gastar dinheiro em jogos.
- De 10 a 12 anos: As crianças passam mais tempo online sozinhas. Elas podem ver anúncios de jogos ou jogar jogos muito parecidos com jogos de cassino. Elas entendem um pouco melhor o risco, mas ainda podem tomar decisões rápidas sem pensar.
- Aos 13-14 anos: Os adolescentes usam muito a internet e as redes sociais. Os amigos podem falar sobre jogos ou até mesmo apostas. Seus cérebros ainda estão em desenvolvimento, o que torna mais difícil para eles controlarem os impulsos e fazerem escolhas seguras em relação a jogos digitais.
- De 15 a 17 anos: Os adolescentes buscam mais autonomia e podem ter acesso próprio a contas digitais, cartões ou carteiras virtuais. Isso aumenta o risco de apostas online, especialmente em plataformas divulgadas por influenciadores ou anúncios em redes sociais. Eles já entendem melhor o conceito de dinheiro e probabilidade, mas ainda tendem a subestimar riscos e superestimar chances de ganho. A pressão do grupo, a curiosidade, a busca por emoção e o desejo de ter seu próprio dinheiro podem intensificar o envolvimento. Nessa fase, mudanças de humor, dificuldade de parar de jogar, irritação ao perder dinheiro ou necessidade de apostar para “recuperar” perdas podem ser sinais de alerta.
Entender o que é típico em cada idade ajuda os cuidadores a diferenciar curiosidade e experimentação de comportamentos que podem evoluir para um padrão problemático. Diálogo aberto, supervisão adequada à idade e educação sobre riscos financeiros são fundamentais para prevenção.
Quando devo me preocupar?
É importante saber quando o uso de dispositivos digitais ou o envolvimento com jogos de apostas por uma criança ou adolescente começa a se tornar um problema. Embora sejam situações diferentes, ambas podem trazer riscos e, em alguns casos, se sobrepor — especialmente no ambiente online.
Existem sinais que podem indicar que a criança ou adolescente está desenvolvendo um padrão de uso problemático, seja em relação à tecnologia ou às apostas. Identificar esses sinais precocemente pode ajudar você a buscar apoio.
Você deve se preocupar se notar:
- Mudanças na escola ou nas atividades: Ele pode faltar às aulas, ter notas mais baixas ou perder o interesse por hobbies que antes gostava.
- Mudanças de comportamento: Ele pode agir com mais raiva, ficar mais reservado ou parecer mais triste ou preocupado do que o normal.
- Foco excessivo em vencer: Ele pode sempre querer competir, vencer ou estar certo, especialmente em jogos.
- Problemas financeiros: Dinheiro pode desaparecer de casa ou seu filho pode ter dinheiro ou itens novos que não consegue explicar.
E se perceber que seu filho:
- Passa mais tempo online, frequentemente em segredo: Ele pode usar dispositivos com muito mais frequência do que antes e tentar esconder o que está fazendo.
- Pensa em jogos ou apostas o tempo todo: Fala muito sobre isso, mesmo quando não está jogando.
- Fica chateado(a) se não pode jogar ou apostar: Pode ficar mal-humorado(a) ou irritável se tiver que parar.
- Precisa jogar mais para se sentir bem: Pode precisar gastar mais tempo ou dinheiro com jogos ou apostas para obter a mesma emoção.
- Tenta parar, mas não consegue: Diz que quer diminuir o ritmo, mas não consegue.
- Continua jogando mesmo que cause problemas: Continua mesmo que isso prejudique suas amizades, estudos ou vida familiar.
- Busca escapar de sentimentos ruins: Joga ou aposta para se sentir melhor quando está triste, estressado(a) ou sozinho(a).
- Esconde dos outros: Mente sobre quanto tempo ou dinheiro gasta nessas atividades.
- Uso de múltiplas contas ou perfis: Cria contas escondidas para continuar jogando ou apostando.
- Sofre alterações no sono: Fica acordado até tarde para jogar ou apostar, apresentando cansaço frequente.
- Sofre isolamento social: Prefere jogar sozinho(a) a encontrar amigos presencialmente ou participar de atividades familiares.
Segundo dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros entre 14 e 18 anos já fizeram apostas, principalmente esportivas, somente no ano de 2023. A maioria aposta por curiosidade (37%) ou influência de amigos (28%), e não prioritariamente por dinheiro (25%).
Por isso, estar atento(a) aos sinais da criança ou adolescente próximo a você pode fazer toda diferença.
O que posso fazer para ajudar?
Aqui estão algumas maneiras de ajudar seu filho em casa:
- Converse abertamente sobre os riscos. Explique que alguns jogos online têm elementos semelhantes a jogos de azar. Diga a ele que o jogo pode ser arriscado e se tornar um vício, o que é muito prejudicial, especialmente para os jovens.
- Estabeleça regras claras para o tempo de tela. Decidam juntos quanto tempo seu filho pode passar em dispositivos eletrônicos e jogos por dia. Certifique-se de que essas regras sejam seguidas por todos.
- Use ferramentas de controle parental. Para crianças e adolescentes mais novos, recursos de controle parental podem ajudar a limitar o acesso a conteúdos inadequados, bloquear compras e monitorar o uso de aplicativos e jogos. Essas ferramentas devem ser usadas como complemento ao diálogo, não como substituto.
- Observe as atividades online dele. Saiba quais jogos seu filho joga e se esses jogos pedem dinheiro ou têm elementos de jogos de apostas. Preste atenção em como ele usa o dinheiro online, principalmente se for o seu dinheiro. Antes de permitir o uso, verifique a faixa etária recomendada e se o jogo inclui compras, recompensas aleatórias (como “loot boxes”) ou elementos de aposta.
- Incentive outras atividades divertidas. Ajude seu filho a encontrar hobbies e atividades que ele goste longe das telas. Isso pode incluir esportes, arte, música ou passar tempo com amigos e familiares.
- Seja um bom exemplo. As crianças aprendem observando os adultos. Demonstre hábitos saudáveis com o seu próprio uso do celular ou computador e com a forma como você fala sobre jogos online ou se envolve neles.
- Converse sobre dinheiro. Ajude seu filho a aprender o valor do dinheiro e como administrá-lo. Isso pode diminuir a probabilidade de ele gastar dinheiro com jogos ou apostas.
- Continue conversando com seu filho. Certifique-se de que seu filho se sinta seguro para conversar com você sobre quaisquer problemas ou pressões que ele enfrente online. Ouça-o sem julgá-lo.
Que tipo de apoio profissional posso procurar?
Se você está preocupado com o envolvimento do seu filho com jogos online ou uso excessivo de jogos digitais, é importante buscar orientação. Quanto mais cedo o apoio acontece, maiores são as chances de prevenir prejuízos emocionais, sociais e financeiros.
Você pode começar conversando com o pediatra ou médico de família. Esses profissionais podem avaliar mudanças de comportamento, orientar a família e, se necessário, encaminhar para um especialista em saúde mental, como psicólogo(a) ou psiquiatra infantil. Orientadores escolares também podem ajudar a observar impactos no rendimento e no comportamento na escola.
Profissionais de saúde mental podem trabalhar questões como impulsividade, ansiedade, dificuldade de controle, necessidade de recompensa imediata e uso do jogo como forma de escapar de sentimentos difíceis. O acompanhamento também pode incluir orientação financeira básica e estratégias de autorregulação.
É possível buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde a equipe realiza o acolhimento inicial e encaminha para serviços especializados, se necessário.
Outras formas de atendimento também estão disponíveis em:
Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): oferecem atendimento contínuo para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico mais intenso ou comportamentos compulsivos.
Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD): em algumas cidades, também atendem casos de dependências comportamentais e podem orientar famílias sobre vícios relacionados a jogos e apostas.
Ambulatórios de hospitais universitários ou regionais: frequentemente oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.
O apoio profissional pode ajudar tanto a criança ou adolescente quanto os cuidadores, fortalecendo limites, melhorando a comunicação familiar e desenvolvendo estratégias práticas para reduzir riscos e promover um uso mais saudável da tecnologia.
Onde encontrar
mais informações
Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.
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