Sentir desconfiança dos outros, ter pensamentos estranhos ou sentir que está ouvindo vozes ou vendo pessoas que ninguém mais vê

Este guia foi preparado especialmente para todas as pessoas que cuidam de crianças e adolescentes, e que se preocupam com a saúde mental deles. Se você é mãe, pai, avó, avô, tio, tia, madrinha, padrinho ou exerce qualquer papel de cuidado, aqui você encontrará informações acessíveis e úteis para apoiar quem está crescendo sob sua responsabilidade.

Às vezes, as crianças vivenciam coisas que parecem estranhas ou incomuns. Elas podem ouvir vozes que os outros não conseguem ouvir ou ver coisas que não estão lá. Podem ficar desconfiadas de outras pessoas sem motivo ou ter crenças que não parecem reais.

Também podem agir de maneiras que adultos têm dificuldade em entender. Essas experiências podem ser assustadoras tanto para a criança quanto para os cuidadores. Esse tipo de experiência pode acontecer de maneira súbita ou ir se intensificando ao longo do tempo.

Esse tipo de percepção ou pensamento não é “falta de atenção”, “mentira” ou “imaginação”, mas uma alteração no modo como o cérebro processa informações, portanto, esses problemas não são culpa da criança. A intervenção precoce e o apoio podem fazer uma grande diferença.

O que é esperado?

É comum que crianças pequenas tenham imaginações ativas. Elas podem ter amigos imaginários, falar consigo mesmas ou acreditar em criaturas mágicas. Isso faz parte do desenvolvimento natural, pois buscam interpretar o mundo à sua maneira.

À medida que as crianças crescem, aprendem a distinguir entre fantasia e realidade. Veja:

  • Até os 5 anos: As crianças brincam de faz de conta e podem ter amigos imaginários.
  • Entre 6 e 8 anos: As crianças começam a entender a diferença entre o real e o imaginário, mas suas imaginações ainda estão ativas.
  • Entre 9 e 11 anos: O pensamento das crianças se torna mais lógico e realista.
  • Entre 12 e 14 anos: O pensamento das crianças se torna mais abstrato e complexo, mas elas geralmente entendem a realidade.

O esperado é que, conforme o cérebro amadurece, a criança consiga distinguir mais claramente o que é real e o que é fruto de imaginação.

Quando devo me preocupar?

A imaginação faz parte da infância e da adolescência, mas existem situações em que certas experiências não são brincadeira nem faz de conta e precisam de atenção. Nessas situações, o que a criança ou o adolescente está vivendo é muito real para ele(a), mesmo que pareça estranho para os outros.

Sinais de preocupação incluem:

  • Alucinações: ver, ouvir, cheirar, sentir gosto ou sensações que ninguém mais percebe. Isso pode incluir ouvir vozes, ver sombras ou figuras, ou sentir algo rastejando na pele.
  • Delírios: acreditar fortemente em algo que não é real, como pensar que tem poderes especiais, que alguém está tentando prejudicá-lo(a) ou que está sendo controlado por forças externas.
  • Ideias rígidas sem base na realidade: acreditar que há câmeras escondidas em casa ou que alguém quer fazer mal à família, mesmo quando não há nenhuma prova disso.
  • Pensamento e fala desorganizados: dificuldade em organizar as ideias, falar de forma confusa ou difícil de entender.
  • Comportamento incomum ou estranho: agir de maneiras muito diferentes do esperado para a idade, como falar sozinho(a) em público, deixar de cuidar da higiene ou criar rituais incomuns.
  • Retirada e isolamento: se afastar de amigos e familiares, perder interesse por atividades que antes gostava.
  • Mudanças de humor e comportamento: ficar mais ansioso(a), irritado(a) ou apresentar comportamentos muito diferentes do habitual.
  • Dificuldades na escola: problemas de concentração, de memória ou em concluir tarefas.
  • Alterações no sono: dificuldade para dormir, muitos pesadelos ou sono irregular.

Essas vivências, quando não recebem atenção, costumam se intensificar e trazer muito sofrimento. Quanto mais cedo os cuidadores reconhecerem que não se trata de imaginação, melhores são as chances de recuperação e de melhora com apoio profissional.

O que posso fazer para ajudar?

Se você está preocupado(a) com uma criança que está enfrentando essas dificuldades, oferecer apoio e buscar ajuda profissional é fundamental. Aqui estão algumas coisas que você pode tentar:

  1. Mantenha a calma e ouça: Crie um espaço seguro e sem julgamentos para que a criança fale sobre suas experiências.
  2. Reforce e valide: Diga à criança que você acredita nela e que está lá para apoiá-la. Frases como “Entendo que isso te deixe assustado(a). Vamos passar por isso juntos”, podem ajudar.
  3. Mantenha uma rotina consistente: Horários regulares de sono, refeições e atividades podem proporcionar estabilidade.
  4. Incentive hábitos saudáveis: Promova uma boa alimentação, exercícios e atividades para reduzir o estresse.
  5. Limite a exposição a fatores estressantes: Reduza a exposição a situações ou gatilhos estressantes sempre que possível.
  6. Evite desafiar as crenças da criança: Discutir ou tentar convencer a criança de que suas experiências não são reais pode ser contraproducente. Não diga que é “mentira” ou que ela está “inventando”, pois isso irá aumentar a desconfiança.
  7. Busque ajuda profissional: Um(a) profissional de saúde mental pode fornecer uma avaliação precisa e recomendar o tratamento adequado.

Mostre que a criança não está sozinha. Com intervenção adequada, essas experiências podem diminuir, podendo retomar a convivência e o bem-estar cotidiano.

Que tipo de apoio profissional posso buscar?

Se seu(sua) filho(a) está enfrentando essas dificuldades, é importante buscar ajuda profissional imediatamente. A intervenção precoce pode melhorar significativamente os resultados. Não demore em procurar ajuda se estiver preocupado.

Comece conversando com o(a) pediatra ou médico(a) de família da criança. Esses profissionais podem orientar os primeiros passos e, se necessário, encaminhá-lo para um(a) especialista em saúde mental, como um(a) psicólogo(a) ou psiquiatra infantil.

É possível buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde a equipe de saúde pode fazer o primeiro acolhimento e encaminhar para serviços especializados, se necessário.

Outras formas de atendimento também estão disponíveis em:

  • Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): oferecem atendimento contínuo e especializado para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico mais intenso.
  • Centros de Especialidades Médicas e Psicossociais: presentes em algumas cidades, com equipes multiprofissionais.
  • Ambulatórios de hospitais universitários ou regionais: muitas vezes oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.

Profissionais de saúde mental podem ajudar tanto a criança quanto os cuidadores. Eles trabalham junto com a família, oferecendo estratégias para lidar com os sintomas em casa, na escola e durante o tratamento.

Guias de Bolso

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Onde encontrar
mais informações

Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.

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