Se machucar ou ferir como forma de lidar com sentimentos difíceis ou confusos
Este guia foi preparado especialmente para todas as pessoas que cuidam de crianças e adolescentes, e que se preocupam com a saúde mental deles. Se você é mãe, pai, avó, avô, tio, tia, madrinha, padrinho ou exerce qualquer papel de cuidado, aqui você encontrará informações acessíveis e úteis para apoiar quem está crescendo sob sua responsabilidade.
Às vezes, crianças e adolescentes enfrentam emoções que não sabem como lidar. Podem se sentir sozinhos(as), envergonhados(as), irritados(as) ou sem esperança.
Quando não conseguem conversar sobre o que sentem, podem acabar encontrando formas dolorosas de tentar aliviar a dor emocional, como se autolesionar.
Autolesão é quando alguém se machuca de propósito para lidar com emoções intensas, como tristeza profunda, raiva intensa ou ansiedade extrema.
A forma mais comum de fazer isso é cortando ou arranhando a pele com objetos afiados, como lâminas de barbear, clipes de papel ou tampas de caneta.
Outras formas incluem se queimar, se bater, se morder ou mexer na pele e nas feridas. Autolesão é mais comum em meninas do que em meninos e geralmente começa durante a adolescência.
Para os cuidadores, pode ser difícil perceber esse comportamento ou saber como agir, mas é importante saber que isso não é apenas um “drama”. É algo que merece atenção, paciência e cuidado.
Falar sobre autolesão não aumenta a probabilidade de ela acontecer. Pelo contrário, isso ajuda a entender o problema e pensar em maneiras de ajudar aqueles que se machucam.
É esperado que pessoas se autolesionem?
Não.
Não existe um comportamento esperado de autolesão. Mas, para prevenir ou ajudar quando isso acontece, precisamos entender algumas coisas sobre isso.
Algumas crianças e adolescentes se machucam porque isso os distrai e ajuda a lidar com uma dor emocional intensa. Outros dizem que fazem isso porque se sentem anestesiados(as), e machucar a si mesmos os faz sentir algo.
A autolesão costuma ser mantida em segredo. No entanto, para algumas crianças e adolescentes, pode ser uma forma de pedir ajuda, já que demonstra o sofrimento deles de uma maneira que não conseguem expressar de outra forma. Quando descoberta, geralmente faz com que os cuidadores e adultos fiquem preocupados e queiram ajudar.
A autolesão é o que os especialistas chamam de “ferramenta de enfrentamento mal adaptativa”. Isso significa que apesar de poder trazer alívio temporário, não é a melhor maneira de lidar com os problemas. Infelizmente, o alívio pode fazer com que crianças e adolescentes dependam dela para lidar ou mostrar seus sentimentos dolorosos.
Quanto mais tempo uma criança ou adolescente pratica a autolesão, mais difícil se torna parar. Muitos que se machucam sentem vergonha e dizem que querem parar, mas sem a ajuda adequada, pode ser muito difícil desistir.
Quando devo me preocupar?
Se os cuidadores sabem que seu(sua) filho(a) está se autolesionando, é importante pedir ajuda imediatamente. Mas nem sempre é fácil ter certeza.
Os cuidadores devem prestar mais atenção se perceberem esses sinais:
- Falar sobre autolesão
- Cicatrizes suspeitas, especialmente nos braços, pernas ou barriga
- Feridas que não cicatrizam ou pioram
- Cortes no mesmo lugar
- Colecionar objetos cortantes como pedaços de vidro, alfinetes de segurança, lâminas, etc.
- Usar roupas de manga longa em dias quentes
- Evitar atividades sociais
- Usar muitos curativos
- Recusar trocar de roupa na escola ou na frente de outras pessoas
- Evitar usar roupas de banho
- Visitar sites ou redes sociais sobre autolesão
- Ter amigos que se autolesionam
Mudanças de comportamento, como isolamento, queda no desempenho escolar, insônia ou desinteresse por atividades que antes gostava, não necessariamente indicam autolesão, mas também são sinais de alerta.
Se perceber qualquer comportamento que envolva machucar o próprio corpo, é fundamental levar isso a sério.
Mesmo que a intenção não seja acabar com a vida, esses comportamentos mostram um sofrimento que precisa de escuta e ajuda imediata.
O que posso fazer para ajudar?
Embora os cuidadores sejam aqueles que melhor conhecem seus filhos e filhas, lidar com a autolesão não é fácil.
Aqui estão algumas coisas que você pode tentar:
- Seja empático(a). Se seu(sua) filho(a) falar sobre autolesão, ofereça um espaço seguro para ele(a) expressar seus sentimentos. Evite julgá-lo(a) ou puni-lo(a), pois isso pode piorar a situação. Ouvir com empatia ajuda a construir confiança e compreensão.
- Aborde com delicadeza. Se você suspeitar de autolesão, fale com seu(sua) filho(a) com cuidado. Diga que percebeu algo errado e que se importa com o bem-estar dele(a). Essa abordagem suave pode encorajá-lo(a) a se abrir.
- Seja apoiador(a). Reafirme para seu(sua) filho(a) que você está ali para ajudar no que for necessário. Deixe claro que ele(a) não está sozinho(a) e que você está disposto(a) a apoiá-lo(a) em suas dificuldades.
- Reduza os riscos imediatos. Caso seu(sua) filho(a) esteja se autolesionando, é importante retirar ou limitar o acesso aos meios que ele(a) costuma usar, como lâminas, objetos cortantes ou outros materiais perigosos. Essa atitude não resolve a causa, mas ajuda a reduzir o risco de novos episódios. Sempre faça isso com cuidado e explique que sua intenção é protegê-lo(a), não puni-lo(a).
- Incentive estratégias saudáveis de enfrentamento. Ajude seu(sua) filho(a) a encontrar formas alternativas de lidar com suas emoções, como atividades criativas, exercícios físicos ou técnicas de relaxamento. Estimular canais positivos pode reduzir o impulso de se autolesionar.
Não tente “resolver” a autolesão sozinho(a). O melhor é buscar ajuda de um profissional de saúde mental, que poderá entender as razões por trás da autolesão e os problemas emocionais que seu(sua) filho(a) está enfrentando.
Os cuidadores devem trabalhar junto com o(a) profissional de saúde mental para aprender como conversar com o(a) filho(a), tornar o ambiente doméstico mais seguro e saber o que fazer caso o comportamento continue.
Não hesite em buscar apoio profissional, mesmo que o comportamento pareça ter diminuído. Lembre-se: cuidar da saúde emocional é tão importante quanto cuidar da saúde física.
Que tipo de apoio profissional posso buscar?
Alguns cuidadores podem se sentir envergonhados, inadequados ou culpados se seu(sua) filho(a) estiver se machucando. Mas é importante buscar ajuda se você estiver preocupado(a).
Comece conversando com o(a) pediatra ou médico(a) de família da criança. Esses profissionais podem orientar os primeiros passos e, se necessário, encaminhá-lo para um(a) especialista em saúde mental, como um(a) psicólogo(a) ou psiquiatra infantil.
É possível buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde a equipe de saúde pode fazer o primeiro acolhimento e encaminhar para serviços especializados, se necessário.
Outras formas de atendimento também estão disponíveis em:
- Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): oferecem atendimento contínuo e especializado para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico mais intenso.
- Centros de Especialidades Médicas e Psicossociais: presentes em algumas cidades, com equipes multiprofissionais.
- Ambulatórios de hospitais universitários ou regionais: muitas vezes oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.
- Serviços de emergência: Se a criança ou adolescente estiver em risco imediato ou necessitar de ajuda urgente, os serviços de emergência, como o SAMU (192) ou as unidades de pronto atendimento (UPA), podem ser acionados. Eles oferecem suporte emergencial e podem orientá-lo(a) sobre o próximo passo para um atendimento adequado.
- Emergências hospitalares: Em casos mais graves, onde há risco imediato à saúde física ou mental, hospitais públicos ou privados podem fornecer suporte imediato através de suas unidades de emergência, com atendimento médico e psicológico urgente.
Profissionais de saúde mental podem ajudar tanto a criança quanto os cuidadores.
Eles trabalham junto com a família, oferecendo estratégias para lidar com os sintomas em casa, na escola e durante o tratamento.
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