Julgamentos, preconceitos ou rótulos que afetam a vida das pessoas

Este guia foi preparado para todos aqueles que cuidam de crianças e adolescentes e que se preocupam com a saúde mental deles. Seja você mãe, pai, avó, avô, tio, tia, madrinha, padrinho ou qualquer outra pessoa que exerça o papel de cuidador, aqui você encontrará informações acessíveis e úteis para apoiar aqueles que estão crescendo sob seus cuidados.

O estigma em saúde mental acontece quando crianças e adolescentes são julgados, rotulados ou tratados de forma negativa por causa de como pensam, sentem, se comportam, ou por aspectos da sua aparência.

Comentários como “isso é falta de força”, “é drama” ou “é coisa de gente fraca” podem parecer inofensivos, mas machucam profundamente.

O estigma dificulta que as pessoas e, sobretudo, os jovens, falem sobre seus sentimentos ou peçam ajuda. Pode levar à vergonha, ao medo e até mesmo impedir que eles recebam o cuidado necessário.

O estigma pode vir da mídia, das escolas, das famílias ou até mesmo de profissionais de saúde. Pode ser ainda pior para crianças e adolescentes de grupos minoritários, pois podem enfrentar tratamento inadequado ou discriminação por mais de um motivo, seja ele por condições socioeconômicas, étnicas, raciais, de gênero ou religiosas.

Na sala de aula, mudanças emocionais ou comportamentais podem acabar sendo interpretadas apenas como falta de interesse ou má conduta, por isso, reconhecer esses sinais ajuda a diferenciar comportamento intencional de sinais de sofrimento.

Compreender e combater o estigma ajuda os alunos a se sentirem apoiados e seguros; e educadores podem estar atentos aos sinais.

O que é típico?

A capacidade de perceber emoções, reações e atitudes dos outros começa ainda na infância e se desenvolve ao longo do tempo. Desde cedo, os alunos observam como as pessoas ao seu redor falam, reagem e tratam umas às outras.

Com o passar dos anos, essa compreensão se torna mais complexa, incluindo a percepção de julgamentos, diferenças e formas de exclusão.

  • Normalmente, entre 8 e 10 anos: Os alunos começam a perceber quando os outros estão tristes ou chateados. Eles podem fazer perguntas sobre saúde mental ou porque alguém está agindo de forma diferente.
  • Aos 11 e 12 anos: Os pré-adolescentes começam a entender que a saúde mental faz parte da saúde geral. Eles podem aprender na escola sobre estresse, tristeza ou bullying e como esses fatores podem afetar os sentimentos de alguém.
  • Aos 13 e 14 anos: Os adolescentes podem conhecer colegas ou amigos que estão lidando com desafios de saúde mental. Eles estão aprendendo sobre a importância da gentileza, do respeito e de não julgar os outros por suas dificuldades e diferenças. Os adolescentes também podem começar a perceber como o estigma pode prejudicar as pessoas e podem querer ajudar a reduzi-lo.

É comum que os alunos façam perguntas, queiram ajudar os outros e, às vezes, sintam-se inseguros sobre o que significa saúde mental. Os educadores podem apoiar esse aprendizado conversando abertamente sobre sentimentos e incentivando perguntas em sala de aula.

Quando devo me preocupar?

Vale prestar atenção quando o estigma começa a afetar o bem-estar, a participação ou o desenvolvimento dos(as) estudantes ou quando passa a ser reproduzido no ambiente escolar, mesmo sem intenção. 

Você deve se preocupar se um(a) aluno(a): 

  • Demonstra vergonha ou evita falar sobre o que está sentindo por medo de julgamento; 
  • Se afasta de colegas, atividades ou situações de aprendizagem; 
  • Apresenta queda de participação ou engajamento associada a questões emocionais; 
  • Diz coisas negativas sobre si mesmo(a) ou parece acreditar em rótulos e estigmas; 
  • Sofre piadas, exclusão ou tratamento injusto por parte de colegas. 

Também é importante observar o ambiente da sala de aula e a própria prática. O estigma pode aparecer quando: 

  • Comentários minimizam o sofrimento dos alunos (ex.: “isso é fase”, “é falta de esforço”); 
  • Comportamentos são interpretados apenas como indisciplina, sem considerar possíveis questões emocionais; 
  • Há silêncio ou desconforto ao abordar temas de saúde mental; 
  • Piadas, apelidos ou exclusões não são reconhecidos ou interrompidos. 

Reconhecer esses sinais é essencial para promover um ambiente mais seguro e acolhedor. O estigma não está nos estudantes, mas nas formas como o sofrimento é interpretado e respondido no contexto escolar. 

O que posso fazer para ajudar?

Como educador(a), você desempenha um papel fundamental para que seus alunos e alunas se sintam seguros e aceitos na escola. Há muitas coisas que você pode fazer em sua sala de aula para reduzir o estigma e apoiar a saúde mental de seus estudantes.   

  • Conheça os fatos. Aprenda sobre transtornos mentais e compartilhe o que aprendeu com seus alunos. Isso ajuda a todos a entenderem que dificuldades de saúde mental são questões reais de saúde, e não um sinal de fraqueza.   
  • Esteja atento(a) às suas atitudes e comportamentos. Observe seus próprios pensamentos e palavras sobre saúde mental. Tente evitar julgamentos e demonstre compreensão e apoio. Comentários como “isso é fase”, “é só falta de foco” ou “precisa se esforçar mais” podem parecer motivacionais, mas podem reforçar a ideia de que emoções não devem ser levadas a sério, ou de que tudo está sob controle voluntário.   
  • Escolha suas palavras com cuidado. Use uma linguagem respeitosa e precisa ao falar sobre saúde mental. Por exemplo, diga “um aluno com depressão” em vez de “um aluno deprimido”, pois dessa forma não definimos o aluno a partir de uma condição.   
  • Eduque os outros. Compartilhe informações positivas e verdadeiras sobre saúde mental com outros funcionários, professores e alunos. Discuta sobre mitos ou estereótipos negativos na sala de aula ou na escola.   
  • Concentre-se no positivo. Lembre seus alunos e alunas de que os desafios de saúde mental são apenas uma parte de quem eles são. Celebre os pontos fortes e os sucessos dos estudantes em sala de aula.   
  • Apoie os alunos. Trate-os com dignidade e respeito. Ofereça incentivo e ouça sem julgamentos.   
  • Inclua todos. Certifique-se de que todos os alunos e alunas saibam que pertencem e têm o direito de participar das atividades da sala de aula e da escola. Lembre-os de que é ilegal excluir alguém por causa de uma condição de saúde mental. 

Se um(a) aluno(a) enfrentar estigma adicional por causa de raça, cultura ou outra parte de sua identidade, converse abertamente sobre esses desafios. Ajude-o a encontrar adultos e grupos de apoio na escola que possam lhe dar suporte. 

Que tipo de apoio profissional posso buscar?

Embora educadores não possam buscar apoio profissional para os(as) estudantes, é fundamental que eles saibam como orientar os cuidadores. 

Comece conversando com a família da criança ou do(a) adolescente sobre estigma se perceber que há algum sinal de sofrimento emocional. Explique com calma e paciência o que observa no(a) estudante. 

Você pode recomendar que ele(a) seja encaminhado(a) ao pediatra ou médico de família. Esses profissionais podem orientar os primeiros passos e, se necessário, encaminhá-lo para um(a) especialista em saúde mental, como um(a) psicólogo(a) ou psiquiatra infantil. 

É possível também buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima da residência familiar, onde a equipe de saúde pode fazer o primeiro acolhimento e encaminhar para serviços especializados, se necessário. 

Outras formas de atendimento também estão disponíveis em: 

  • Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): oferecem atendimento contínuo e especializado para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico mais intenso. 
  • Centros de Especialidades Médicas e Psicossociais: presentes em algumas cidades, com equipes multiprofissionais. 
  • Ambulatórios de hospitais universitários ou regionais: muitas vezes oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.

Também existem formações e espaços de supervisão para educadores. Buscar apoio não significa incapacidade, mas compromisso com cuidado responsável e com o desenvolvimento integral dos estudantes. 

Guias de Bolso

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Saiba como funciona o SUS para saúde
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