FOMO e saúde mental: os efeitos do medo de ficar de fora na Geração Z

Artigos, Nossas Vozes

2 de Julho, 2026
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Como as redes sociais intensificam a sensação de estar perdendo experiências e quais os impactos desse fenômeno na saúde mental dos jovens. Por Simon Cantionilia
A sensação de estar perdendo algo nem sempre vem da realidade. Muitas vezes, ela nasce da comparação constante com aquilo que vemos nas telas.

O termo FOMO, sigla para Fear of Missing Out (medo de ficar de fora), descreve a sensação de que outras pessoas estão vivendo experiências mais interessantes, divertidas ou significativas do que nós. Esse sentimento é acompanhado pela preocupação constante de estar perdendo oportunidades, eventos, conexões sociais ou momentos importantes. 

Embora o FOMO não seja um fenômeno recente, sua intensidade aumentou com a popularização das redes sociais. Atualmente, é possível acompanhar em tempo real viagens, conquistas profissionais, encontros e diversas experiências compartilhadas online. Essa exposição contínua pode gerar a impressão de que algo importante está sempre acontecendo em outro lugar. 

Na prática, o FOMO se manifesta por meio da necessidade frequente de verificar o celular, da dificuldade de se desconectar das redes sociais, da ansiedade ao acompanhar publicações de outras pessoas e até da insegurança ao tomar decisões por medo de perder opções melhores. Com o tempo, esse estado de alerta constante pode afetar o bem-estar emocional e a qualidade de vida. 

 

Como as redes sociais influenciam o FOMO? 

As redes sociais funcionam como uma vitrine da vida cotidiana, mas geralmente exibem apenas os momentos considerados mais felizes, interessantes ou bem-sucedidos. Viagens, conquistas acadêmicas, encontros e experiências marcantes são compartilhados com frequência, enquanto dificuldades, frustrações e situações comuns costumam permanecer fora de cena. 

Diante desse conteúdo, muitas pessoas passam a comparar sua realidade completa com versões cuidadosamente selecionadas da vida dos outros. Como resultado, pode surgir a percepção de que todos estão aproveitando mais a vida, alcançando mais objetivos ou sendo mais felizes. 

Além disso, notificações, atualizações constantes e a disponibilidade permanente de conteúdo estimulam a necessidade de permanecer conectado. Surge, então, a preocupação recorrente de perder alguma novidade ou informação importante. Assim, embora as redes sociais não sejam a causa exclusiva do FOMO, elas podem intensificar esse fenômeno ao reforçar a ideia de que é preciso acompanhar tudo o que acontece. 

 

Por que a Geração Z é mais vulnerável? 

A Geração Z, formada por jovens que cresceram em um ambiente digital, desenvolveu uma relação particularmente próxima com a tecnologia. Para muitos deles, as redes sociais não são apenas ferramentas de comunicação, mas também espaços de socialização, construção de identidade e senso de pertencimento. 

Nesse contexto, estar conectado significa participar de grupos, tendências e debates que influenciam a forma como esses jovens se percebem e se relacionam com o mundo. Por isso, o medo de ficar de fora tende a ser mais intenso. 

Quando um jovem percebe que não participou de um evento, não acompanhou uma tendência ou ficou excluído de determinada conversa, pode surgir a sensação de isolamento social. Como essa fase da vida é marcada pela busca por aceitação e reconhecimento, tais experiências costumam gerar impacto emocional significativo, favorecendo sentimentos de ansiedade, comparação constante e insatisfação. 

A experiência do estudante Edgar Torres, de 18 anos, ilustra como o FOMO pode se manifestar no cotidiano de muitos jovens. Em um período dedicado à preparação para o vestibular, Edgar precisou abrir mão de diversos momentos de lazer e convivência com os amigos para priorizar os estudos. 

“Apesar de reconhecer a importância dessa escolha, acompanhar pelas redes sociais os encontros, comemorações e experiências vividas pelos meus amigos frequentemente desperta em mim a sensação de estar ficando para trás”, relata Edgar. Em alguns momentos, a percepção de não participar dessas vivências pode gerar inquietação e ansiedade, tornando mais difícil lidar com a pressão já existente dessa fase da vida. 

O FOMO não é exclusivo de jovens do Brasil, essa percepção também aparece no relato de Kayla Coetzer, jovem da África do Sul entrevistada sobre o tema. Segundo ela, há momentos em que não sente vontade de sair ou interagir com outras pessoas, mas, quando decide participar, geralmente termina a experiência se sentindo mais disposta e energizada. Ela afirma que aprendeu a reconhecer quando vale a pena se incentivar a sair da zona de conforto e quando é melhor respeitar a própria necessidade de descanso.  

 

Consequências do FOMO para a saúde mental 

Uma das principais consequências do FOMO é a comparação social constante. Ao observar repetidamente os aspectos positivos da vida de outras pessoas, muitos indivíduos passam a questionar suas próprias escolhas, conquistas e estilo de vida. Isso pode gerar sentimentos de inadequação e reduzir a satisfação com a própria realidade. 

Esse sentimento também aparece no relato de Spyros Chronis, jovem de 19 anos da Grécia. Segundo ele, ao ver nas redes sociais pessoas da mesma idade viajando, participando de conferências, dirigindo carros incríveis e recebendo grande visibilidade, surge a sensação de que deveria fazer mais, melhorar constantemente e acompanhar o ritmo dos demais. “Não consigo sentir alegria pelas coisas que conquisto porque tenho a impressão constante de que estou ficando para trás, em vez de perceber o que já alcancei”, relata. 

Outro impacto importante está relacionado à dificuldade de relaxar e se desconectar. A sensação de que algo importante pode acontecer a qualquer momento mantém algumas pessoas em estado permanente de vigilância, prejudicando a concentração, o sono e o equilíbrio emocional.  

Apesar disso, Spyros destaca que aprendeu uma lição importante ao longo do tempo: na vida real, muitas das pessoas que parecem estar muito à frente nas redes sociais não estão necessariamente em uma situação melhor do que imaginamos. Para ele, cada pessoa possui qualidades e conquistas próprias, e reconhecer esse valor individual é um passo importante para reduzir a comparação constante e fortalecer o bem-estar emocional. 

Estratégias para promover o bem-estar digital 

Em uma sociedade cada vez mais conectada, acredito que a solução não esteja em abandonar as redes sociais, mas em aprender a utilizá-las de forma mais consciente. Na minha experiência, percebi que o problema não são as plataformas em si, e sim a maneira como nos relacionamos com elas. Quando o uso deixa de ser algo saudável e passa a gerar ansiedade, comparação constante ou a sensação de estar sempre atrasado em relação aos outros, é importante repensar alguns hábitos. 

Uma estratégia que adotei enquanto jovem, sendo eu um estudante universitário de 18 anos, foi desativar temporariamente minhas redes sociais em períodos nos quais percebia que elas estavam aumentando minha ansiedade. Durante esses momentos, consegui direcionar mais atenção aos meus objetivos, compreender melhor meus próprios sentimentos e reduzir a necessidade de acompanhar tudo o que acontecia ao meu redor. 

Outra mudança que considero importante é questionar a necessidade de estar constantemente atualizado sobre a vida de outras pessoas. Muitas vezes, a sensação de estar perdendo algo não surge da realidade, mas da exposição contínua a conteúdos que mostram apenas uma parte da vida de alguém. Aprender a reconhecer isso me ajudou a reduzir comparações e a valorizar mais meu próprio processo. 

O estudante Denny Curini, de 17 anos, de São José dos Campos (SP), também acredita que uma forma de enfrentar o FOMO é lembrar que nem tudo acontece nas redes sociais. Segundo ele, embora esse conselho possa parecer um clichê — e seja frequentemente repetido pelos pais —, continua sendo verdadeiro. “Há muita coisa acontecendo ao nosso redor, mas passamos tanto tempo no mundo digital que acabamos deixando de prestar atenção ao que é real”, afirma. Para Denny, aprender a viver o presente e valorizar as experiências que estão acontecendo diante de nós é uma das melhores maneiras de reduzir a pressão de acompanhar tudo o que aparece nas redes sociais. 

Kayla também destaca que encontrar equilíbrio é fundamental. Para ela, aprender a administrar a vida digital junto da vida pessoal, presencial e profissional faz parte de crescer na era da tecnologia. Ela recomenda observar quando participar das redes sociais e da vida social traz energia e bem-estar e quando essas interações passam a ser desgastantes. Além disso, sugere reduzir o hábito do doomscrolling — rolar o feed compulsivamente por longos períodos — sem necessariamente abandonar as redes sociais, utilizando-as principalmente para manter contato com amigos. Segundo ela, o mais importante é descobrir o equilíbrio que faz sentido para cada pessoa. 

Buscar atividades fora do ambiente digital também faz diferença. Dedicar tempo aos estudos, praticar exercícios físicos, conversar presencialmente com amigos e investir em momentos de lazer contribui para criar uma relação mais equilibrada com a tecnologia. Essas experiências ajudam a lembrar que a vida não acontece apenas nas telas. 

Por fim, acredito que enfrentar o FOMO passa por compreender que não é possível participar de tudo ao mesmo tempo. Fazer escolhas significa abrir mão de algumas experiências para priorizar outras. Quando entendemos isso, torna-se mais fácil aceitar nossas decisões sem a sensação constante de que estamos ficando para trás. Em uma sociedade marcada pela hiperconectividade, aprender a estar presente no próprio caminho pode ser uma das formas mais eficazes de preservar a saúde mental. 

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Simon Cantionilia é de Aracajú (SE), tem 18 anos e está cursando Relações Internacionais na UFS. Foi membro do Juntô Jovem e hoje trabalha como consultor de comunicação no Juntô 

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