Jovens assumem linha de frente para aprimorar sistemas de cuidado em saúde mental
Eu nem sempre soube como falar sobre a violência nas escolas. No ensino fundamental, comecei a ouvir as histórias que minha mãe trazia do trabalho. Como investigadora civil no sistema de justiça juvenil, ela lidava com hematomas escondidos sob as mangas, crianças abandonadas e outras situações críticas.
Aos 15 anos, percebi que aquelas histórias estavam mais próximas do que eu imaginava, quando entrei em uma escola pública no Distrito Federal – a unidade federativa com os maiores índices de violência escolar. Na minha primeira semana, presenciei um episódio traumático envolvendo uma colega que precisou de atendimento médico de urgência durante a aula.
Outros alunos foram retirados da escola sob a acusação de vender drogas ou portar objetos perigosos. Certa manhã, meus colegas encontraram uma ameaça potencialmente devastadora rabiscada no espelho do banheiro.
O medo passou a fazer parte da nossa rotina escolar. Mas não havia espaço para falar sobre o que sentíamos; nenhuma orientação; nenhum apoio em saúde mental. Apenas a expectativa de que seguiríamos em frente como se nada tivesse acontecido. Mas o que acontece quando o medo se torna rotina? Quando a escola parece o lugar menos seguro para se estar?
Essas perguntas me acompanhavam enquanto colegas começavam a desistir dos estudos. Muitos tinham pouca esperança na educação, tentando conciliar a escola com o sustento da família. Essa realidade despertou em mim a necessidade de ajudar estudantes a lidar com o trauma sem abandonar o aprendizado.
Ingressei na Jovens Líderes pela Paz (JLPP), a principal organização sem fins lucrativos do Brasil dedicada à prevenção da violência escolar por meio da saúde mental, da alfabetização emocional e da liderança juvenil. Com o apoio do Global Center da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes, no Child Mind Institute, ajudei a desenvolver o currículo da JLPP, voltado para o fortalecimento e a avaliação de intervenções em saúde mental no ambiente escolar.
Durante uma imersão científica na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) – constantemente classificada entre as três melhores universidades privadas do Brasil –, trabalhei com a professora Patrícia Bado na avaliação do impacto do programa. Foi a primeira vez que transformei uma experiência vivida em dados – para que possamos criar programas melhores, feitos por jovens e para jovens.
No último ano, meu envolvimento com a saúde mental juvenil foi impulsionado pela minha participação no Juntô Jovem, um conselho que é fruto de uma parceria entre o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e o SNF Global Center. Nosso comitê reúne estudantes de escolas públicas de todas as regiões do país para discutir os temas mais urgentes relacionados à saúde mental de jovens.
O que torna o conselho especial não é apenas a troca de conhecimento, mas a transformação da experiência vivida em propostas concretas. Trata-se de trazer a realidade da sala de aula para o diálogo reflexivo e ver ideias conduzidas por jovens inspirarem mudanças reais. Foi o que aconteceu quando um colega do Juntô Jovem e eu falamos no Congresso Nacional durante a celebração do Dia Internacional da Juventude de 2025, sobre como as vozes jovens podem contribuir para aprimorar os sistemas e programas nacionais de saúde mental.
Aproximar os jovens dos profissionais do SUS
Também fundei a Juventude pelo SUS, organização sem fins lucrativos que une jovens de todo o Brasil em prol do fortalecimento e da valorização do nosso sistema público de saúde. Contamos as histórias de quem atua na linha de frente do Sistema Único de Saúde (SUS) em podcasts produzidos por jovens, com médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e gestores. Transformamos essas histórias em fontes de inspiração e aprendizado.
Por meio de uma conexão mais profunda entre a juventude e os profissionais do SUS, esperamos incentivar os jovens a agir pelo fortalecimento dos sistemas de cuidado em saúde mental. Em nossa organização, os próprios jovens também lideram a produção de pesquisas e análises para aprimorar as políticas públicas já existentes.
Um dos nossos estudos mais recentes investigou o impacto das mudanças climáticas na saúde pública, reforçando a mensagem de que proteger a saúde mental de crianças e adolescentes também significa proteger o meio ambiente e promover soluções sustentáveis.
Eu não escolhi crescer cercada pela violência escolar. Mas posso escolher ajudar a transformar a maneira como falamos sobre ela – e como agimos diante dela.
Ana Beatriz Araújo, 17 anos, é do Distrito Federal. Integra o Juntô Jovem, uma iniciativa do Global Center da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes, no Child Mind Institute, e atua na Jovens Líderes pela Paz (JLPP). Bia, como é conhecida, pesquisa o impacto de programas de prevenção à violência escolar e acredita que todo estudante merece se sentir emocional e fisicamente seguro na escola.
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7 de Novembro, 2025Queremos saber
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