Racismo prejudica saúde mental de jovens negros
(Publicado originalmente no jornal O Globo, em 21/11/2025; acesso exclusivo para assinantes)
A saúde mental de crianças e adolescentes resulta da interação de fatores individuais, familiares, comunitários e estruturais. Depende das oportunidades de convivência, acesso à educação, moradia digna, segurança e vínculos afetivos, segundo a Organização Mundial da Saúde. Quando atravessa esses determinantes, o racismo restringe oportunidades, desgasta a autoestima e gera um estresse que interfere no bem-estar e no desenvolvimento.
O racismo opera em três níveis: individual (ofensas, apelidos, exclusões e microagressões), institucional (quando escolas e serviços de saúde tratam de forma desigual negros, indígenas e quilombolas, ou silenciam diante da discriminação) e estrutural (políticas e práticas que perpetuam pobreza, evasão escolar e violência).
No Brasil, 83,6% das crianças e adolescentes mortos por causas violentas são negras, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública*. O medo e o luto recorrente debilitam a saúde mental de quem sobrevive, um problema agravado no Brasil pela deficiência no tratamento e na atenção psicossocial, que afeta principalmente a população negra.
Um exemplo disso é o resultado de uma pesquisa** com 2.511 crianças de 6 a 12 anos, das quais 652 receberam diagnóstico de pelo menos um transtorno mental. Além de 81% delas nunca terem recebido o devido tratamento, constatou-se que crianças negras tinham probabilidade significativamente maior de não terem suas necessidades de atenção em saúde mental atendidas, em comparação com as brancas.
Já uma pesquisa da USP*** mostra que, quando crianças e adolescentes negros têm acesso à educação de qualidade, representatividade e rede de apoio, os indicadores de bem-estar melhoram. Nesse caminho, as escolas são decisivas na promoção de saúde mental. Quando silenciam diante do racismo, reforçam o adoecimento; quando promovem acolhimento e diversidade, tornam-se fator de proteção.
O Brasil possui marcos importantes, como as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que obrigam o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, e as Políticas Nacionais de Equidade e Educação para as Relações Étnico-Raciais e de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, que orientam ações de promoção e cuidado integral. São bases para um futuro mais justo, mas sua implementação precisa avançar. Prova disso é uma pesquisa realizada em 1.187 Secretarias Municipais de Educação, que revelou que 71% delas realiza pouca ou nenhuma ação para a efetividade da lei 10.639****.
Ancestralidade e espiritualidade
Há iniciativas que colocam a saúde mental das juventudes negras no centro do debate, como a Anpsinep (Articulação Nacional de Psicólogos Negros e Pesquisadores) e a Amma Psiquê e Negritude, que exemplificam a aplicação da psicologia como um processo coletivo. Essas ações reconhecem que o cuidado em saúde mental está profundamente ligado à ancestralidade, à identidade e ao território, e que o bem-estar psicológico também é afetado pelas desigualdades sociais que atravessam a vida das populações negras.
Em comunidades, a comunhão entre espiritualidade, educação e pertencimento fortalece a autoestima e o bem-estar emocional. Rodas de conversa, oficinas e projetos educativos valorizam raízes e criam espaços de dignidade e esperança. A saúde mental se amplia, deixando de ser percebida como mera ausência de sofrimento.
Um problema tão complexo só pode ser enfrentado com ações integradas entre governo, escolas, famílias e comunidades. Garantir que crianças e adolescentes negros, indígenas e quilombolas cresçam com autoestima, segurança e pertencimento é um primeiro passo para um país saudável e igualitário.
* Intitulado “Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil”, é datado de 2021.
** O estudo, realizado em São Paulo e Porto Alegre, se chama “O uso de serviços de saúde mental por crianças com transtornos mentais em duas grandes cidades do Brasil” e foi publicado em 2019.
*** A pesquisa se chama “Atenção à Saúde Mental de Crianças e Adolescentes Negros e o Racismo” e foi publicada em 2022.
**** Chamada “Lei 10.639/03: a atuação das Secretarias Municipais de Educação no ensino de história e cultura africana e afro-brasileira”, a pesquisa foi lançada em 2023 por Geledés Instituto da Mulher Negra e Instituto Alana.
Irene Silva é psicóloga e mestre em Poder, Participação e Transformação Social pelo Institute of Development Studies (IDS) da Universidade de Sussex, no Reino Unido. É consultora de Programas Educacionais e Psicossociais do Juntô – Iniciativa Brasileira de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes do Centro Global da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes no Child Mind Institute (CMI).
Camila Fortes Franklin é jornalista e doutora em Informação e Comunicação em Saúde (Fiocruz), com doutorado-sanduíche no Centro de Estudos Sociais na Universidade de Coimbra, em Portugal. É consultora de Comunicação e Saúde Mental do Juntô – Iniciativa Brasileira de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes do Centro Global da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes no Child Mind Institute (CMI).
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