Para que as escolas se tornem espaços de cura e pertencimento
Hoje não é nenhuma data oficialmente importante para os indígenas do Brasil, e por isso mesmo vamos postar sobre eles. Particularmente, sobre o ativista e indígena Carlos Ramos de Lima, de 18 anos, da etnia Miranha Apurinã, membro do Juntô Jovem, um comitê onde, segundo ele, tem sido possível falar sobre saúde mental de jovens indígenas e quilombolas, além de pesquisar sobre políticas públicas para esse grupo.
Quando teve a palavra no webinário “O papel social da escola na promoção da saúde mental”, em novembro último, Ramos defendeu o respeito às subjetividades, às identidades e a tudo que os jovens indígenas tem a dizer sobre suas próprias necessidades e vontades. Sustentou que a escola seja um ambiente antirracista e que as culturas das comunidades tradicionais sejam tratadas sem exotismo, sem aquele sentimento de exceção típico das comemorações cívicas tradicionais, como o Dia Nacional dos Povos Indígenas.
“A gente não quer ser objeto de estudo no dia 19 de abril. Nosso povo, nossa história e nossos saberes existem o ano todo”, afirmou Ramos. Confira a seguir os trechos mais marcantes do depoimento.
Escuta verdadeira
“A gente aprende desde cedo que toda terra é um território — com cultura, regras, história e poder. A escola passa a ser um território também. E como todo território, pode ser um espaço de acolhimento, de cura, ou um espaço de silenciamento e adoecimento.
Na visão atual e na estrutura do ambiente escolar, muitas vezes o cuidado é um conceito passivo: é o portão seguro, a merenda no prato, a ausência de violência física. E o ‘escutar’ é simplesmente ter a porta da direção aberta — mesmo que a gente só possa entrar lá pra levar uma reclamação.
Só que pra gente, jovens, ativistas, pessoas que querem protagonismo, cuidar é ter nossa subjetividade, nossa identidade valorizadas e validadas. É o professor perceber que você não está bem e perguntar como você está — e não apenas o que você fez. E escutar não é apenas o que o adulto ouve, mas o que ele faz com o que ouviu.
Ou seja, escutar é quando a nossa opinião sobre o currículo, sobre as regras, sobre o ambiente é levada a sério e gera mudanças. É a escola parar de praticar o ‘epistemicídio’, que é o assassinato dos nossos saberes. É a escola olhar para a gente com olhar de decolonização e principalmente entender e praticar esse processo de decolonização dos saberes. Entender que nos territórios quilombolas, indígenas, ribeirinhos também há conhecimentos que precisam ser validados. Quando passa a entender esses saberes, a escola passa a escutar de forma verdadeira o indivíduo que está tentando se formar. Quando reconhece nossos saberes como parte legítima do currículo, e não como curiosidade, ela se torna um território de cura.”
Antirracismo e saúde mental
“Cuidar é a escola ser ativamente antirracista; é entender que minha saúde mental está intrinsecamente ligada ao respeito pela minha cultura, pela minha terra, pela minha história e pelo meu povo.
Falar de saúde mental hoje, num processo histórico, é entender que todos os dias passamos por um processo de apagamento dentro da nossa instituição escolar, que muitas vezes apagam nossos sentimentos, nossas escutas e nosso pertencimento.
As experiências que funcionam são aquelas nas quais conseguimos ser agentes de protagonismo. São os grêmios estudantis. Mas os grêmios realmente autônomos, que discutem políticas públicas, que opinam nas regras, no currículo escolar. Não aqueles decorativos, que servem pra organizar festa junina ou sarau. Nós não queremos ser apenas promotores de eventos, queremos ser reconhecidos como sujeitos de voz, que precisam ser respeitados.
O pertencimento real vem de um lugar mais profundo, com corresponsabilidade, quer dizer, quando o jovem também pode exercer responsabilidade e cargos de decisão.”
Ancestralidade sem folclore
“Uma experiência concreta de pertencimento é quando a escola abre as portas para os mais velhos das nossas comunidades ensinarem; quando a sabedoria da minha avó é tratada como aula, e não como folclore.
O calendário escolar não deve se limitar às datas cívicas nacionais. A gente não quer ser objeto de estudo no dia 19 de abril, que é Dia Nacional dos Povos Indígenas. Nosso povo, nossa história e nossos saberes existem o ano todo. Mas somos invisibilizados.
As aulas promovidas pela lei que obriga os estudos indígenas e afrobrasileiros (Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008) muitas vezes são folclorizadas e superficiais. É uma coisa tão pequena que se torna até banal.”
Adultocentrismo
“Precisamos nomear as barreiras que nos adoecem, porque tem toda essa perspectiva da desigualdade, da violência, da precarização do ambiente escolar. Além disso, tem o adultocentrismo, aquele crença, muitas vezes inconsciente, de que o adulto sabe o que é melhor para o jovem. Somos convidados para participar, mas nunca para decidir. Somos coadjuvantes.
Outra questão importante é o tokenismo — quando a escola chama um jovem indígena, negro ou LGBT apenas para tirar uma foto e dizer ‘a gente tem diversidade’, sem dar poder real. A gente só é chamado para validar, para cumprir a cota da diversidade, nunca para discutir políticas públicas sobre diversidade. Essa barreira é violenta e reforça o racismo institucional.
Para muitos jovens indígenas e quilombolas, a escola é o primeiro território de violência, o primeiro território onde sofrem racismo. No ensino fundamental, eu só era lembrado quando precisava ir para o desfile cívico-mililtar e usar meus paramentos indígenas, pra ser objeto de exotização e remeter a 1500.
Em toda a carreira escolar, só vi representatividade do meu povo em palestras quando entrei no ensino médio e fui reativar o Neabi (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas) do campus onde estudei. Foi ali que a gente conseguiu realizar uma palestra sobre a importância das ações afirmativas.”
Protagonismo coletivo
“Cresci sendo invisibilizado diariamente. E isso continua nas nossas escolas. Passei por um processo de adoecimento mental, social, por falta de representatividade, porque eu não me sentia acolhido pelos próprios professores.
O jovem precisa participar de um conselho. Um exemplo é o voto direto de representantes estudantis nos conselhos escolares, como acontece em alguns institutos federais. Isso cria representatividade e protagonismo real. E quando a gente fala de protagonismo, é importante lembrar: nas comunidades tradicionais, o protagonismo não é individual — é coletivo. Não é sobre criar um ‘eu brilhante’, mas sobre formar agentes que cuidam da comunidade.
A escola precisa confiar na nossa capacidade de cuidar de nós mesmos e dos nossos pares.”
Letramento racial
“Qualquer política de saúde mental vai depender da nossa presença para ser bem sucedida. Se não entendermos a subjetividade dos jovens, se não os ouvirmos, o plano estadual – debatido durante o curso – vai falhar quando colocado em prática. O plano precisa garantir que os grêmios, os comitês juvenis tenham um trabalho real: orçamento próprio, pertencimento, estar dentro das decisões.
No Conselho de Juventude de Santa Catarina (Conjuve), o que mais a gente tem de demanda juvenil é sobre falta de espaço. Não adianta um gestor, um adulto de 50 anos, propor uma política de juventude, porque ele pode ter estudado, mas o que a Academia fala não é o que acontece na realidade. Esses jovens são modificados diariamente, e isso muda nossas perspectivas, nossos entendimentos.
Além disso, precisamos ter formação antirracial de forma obrigatória, para todos os educadores, em relação à questão etnico-racial e à saúde mental. Porque não vai haver escuta se o educador não estiver letrado para entender nossa dor.”
Território de cura
“Por fim, o papel social da escola é nos preparar para a vida. É garantir uma formação integral, humanista e, principalmente, antirracista. Para isso, precisamos estar vivos e integrados dentro da comunidade. A escola que a gente quer não é um prédio. É um território de cura, justiça e igualdade social.”
Clique aqui para assistir ao webinário na íntegra. A fala de Carlos começa em 1h04min.
Carlos Ramos de Lima, 18 anos, é um jovem ativista indígena, estudante de Direito e pesquisador com foco em gênero, raça, sexualidade e suas subjetividades diante das estruturas de poder. É vice-presidente do Conselho de Juventude de Santa Catarina (Conjuve-SC) e membro do Juntô Jovem, um comitê mantido pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e pelo Juntô – Iniciativa Brasileira de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes.
O webinário é parte da programação do curso “Da Lei à Prática: Como Implementar a Política Nacional de Saúde Mental nas Escolas”, organizado pela Secretaria de Educação de Pernambuco (SEE-PE), por meio do Projeto EntreLaços, em parceria com o IEPS, o Juntô e o Global Center da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes no Child Mind Institute, com apoio do Ministério da Educação (MEC).
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12 de Dezembro, 2025Você tem alguma história ou experiência inspiradora sobre saúde mental?
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