“Nada sobre nós sem nós”: juventude constrói futuro da saúde mental no Brasil
Por Daniel Nascimento, Júlio Ruan, Marina da Silva, Camila Fortes Franklin e Filipe Asth (publicado originalmente no Nexo Políticas Públicas, em 25 de novembro de 2025)
De 13 a 15 de outubro, jovens de várias partes do Brasil se reuniram em Brasília para um encontro diferente. O foco foi aproveitar a presença física para trocar ideias e propor ações coletivas sobre saúde mental, como um desdobramento da trilha formativa que vem ocorrendo por meio de reuniões virtuais quinzenais desde abril deste ano. Foram dias de escuta, afeto e reflexões sobre como o que cada um vive não é só individual, mas também coletivo e atravessado pelas realidades sociais e políticas do país.
A articulação de políticas de saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil é algo recente: começou a ser pautada na agenda de saúde pública há pouco mais de duas décadas. Nesse sentido, abrir caminhos para que as juventudes estejam à frente não apenas como público-alvo, mas como protagonistas das mudanças que querem ver, é um primeiro passo rumo a uma prática mais participativa e consciente dos direitos.
Entre um bate-papo e outro, o grupo debateu sobre como a saúde mental não é um tema isolado, mas é o fio que costura as possibilidades de existir com dignidade. Nesse sentido, se houve uma perspectiva comum a todos os jovens ali presentes foi de que não há como falar sobre saúde mental sem falar sobre desigualdade, raça, gênero, acesso e cuidado, e que essas fazem parte das necessidades reais da juventude. Eles carregam a consciência de quem entende que saúde mental não é só ausência de sofrimento, mas também a presença de condições dignas para existir.
Para Daniel Nascimento, do Juntô Jovem, essas necessidades envolvem mais do que suporte e atenção psicossocial, pois trata-se também do acesso a políticas básicas de dignidade.
“Em termos de saúde mental, o que nós reivindicamos está na base, ou seja, envolve mais serviços de saúde mental na atenção primária, mais psicólogos, mais equipes multiprofissionais e aparelhos mais qualificados. Mas, além disso, envolve ter uma cidade que seja feita para todos, que considere a segurança, saúde, lazer, cultura e acesso a dispositivos que vão para além de sair de casa, ir para o trabalho e usar um transporte público. Saúde mental envolve tudo isso, e envolve bem-estar e dignidade”, diz Daniel.
De nada adianta termos leis e políticas nacionais se, na ponta, não houver pessoas sensíveis e engajadas, porque é delas a força que faz as coisas acontecerem Marina da Silva, do Juntô Jovem
Marina da Silva, também do comitê juvenil do Juntô, complementa: “Nós, enquanto jovens, também estamos reivindicando mais compreensão sobre saúde mental, onde as pessoas consigam tratar o tema com mais seriedade. Às vezes até as escolas podem reproduzir essas violências, por isso, nossa reivindicação envolve a valorização do assunto, com um suporte multiprofissional que acolha as diferenças e que saiba agir e atuar dentro das diversas realidades.”
Daniel: “Antes de pensar em repasses de verba e sucateamento do Sistema Único de Saúde, precisamos falar sobre a importância de se ver a saúde mental como algo básico. Não é mimimi, não é besteira, é algo urgente. As pessoas precisam entender que saúde mental envolve diversas instâncias, e combater os estigmas é o primeiro passo.”
Vemos então, a potência de reunir jovens de tantos lugares diferentes: perceber que as dores e os sonhos ganham novas dimensões quando se tornam coletivos. Entende-se, assim, que a juventude não quer ser chamada apenas quando o debate já está decidido. Pelo contrário, quer participar do início, desenhar junto, propor soluções que façam sentido para suas realidades e ter autonomia para experimentar o que ainda não existe.
É o que nos aponta Júlio Ruan Ferreira, do comitê: “Nós jovens estamos sendo ouvidos, porém, precisamos ser ouvidos de forma mais verdadeira e efetiva, com mecanismos de participação genuína, representação autêntica e educação cívica para que nossas vozes sejam consideradas e respeitadas.”
No encontro, ficou evidente que o futuro da saúde mental precisa avançar para além dos discursos fechados ou dos programas que não escutam a base, pois ele depende da coragem de reconhecer que os jovens conhecem, com precisão, o que os atravessa cotidianamente e que são agentes centrais nessas discussões. Eles sabem o impacto das violências que marcam territórios e corpos, das desigualdades que limitam sonhos, das escolas que não acolhem as diferenças e das cidades que não protegem.
É por isso que espaços como o Juntô Jovem são urgentes, pois não basta falar sobre juventude; é preciso falar com ela, e mais do que isso, deixar que fale por si. Quando os jovens estão na mesa de decisão, o cuidado deixa de ser uma ideia distante e passa a fazer parte do dia a dia. Políticas pensadas com participação direta da juventude têm mais aderência à realidade, são mais eficazes e evitam soluções distantes de quem vai vivê-las na prática. Ali, onde a política pública encontra a experiência concreta, surgem caminhos mais honestos, mais humanos e, principalmente, mais coletivos e efetivos.
Momentos marcantes
Em Brasília esses espaços de escuta foram frequentes, mas alguns chamaram atenção: a visita ao primeiro Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) do país, um símbolo da luta antimanicomial e do cuidado comunitário, foi um deles.
Em seguida, os jovens entregaram ao ministro da Educação, Camilo Santana, e a parlamentares da Frente Parlamentar Mista para a Promoção de Saúde Mental um relatório de monitoramento com propostas sobre a implementação da Política de Saúde Mental nas Escolas – um documento construído a partir da ação de fiscalização da Frente Parlamentar. O relatório foi analisado e revisado pelos membros do Comitê a partir de suas vivências em cada região. Por fim, participaram de uma reunião com o coordenador nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, para dialogar sobre caminhos de participação efetiva das juventudes nas políticas públicas.
Ruan: “Esses espaços fortalecem a voz da juventude, influenciam políticas públicas e promovem a participação cidadã, representando uma oportunidade de expressão, empoderamento e desenvolvimento de habilidades para os jovens.”
Marina: “O encontro mudou a minha forma de enxergar a saúde mental no meu território. Vivendo em uma cidade pequena, percebi que o acesso a esse cuidado não é simples, é um trabalho complexo, que só acontece porque existem profissionais comprometidos em colaborar e cuidar das pessoas. De nada adianta termos leis e políticas nacionais se, na ponta, não houver pessoas sensíveis e engajadas, porque é delas que vem a força que faz as coisas realmente acontecerem.”
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Daniel Nascimento é conselheiro no Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente e comunicador social na Rede Não Bata, Eduque. Começou a militância no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPSi) Pequeno Hans pela construção e garantia de direitos para crianças e adolescentes. Daniel é membro do Juntô Jovem.
Júlio Ruan Ferreira é estudante do IFB (Instituto Federal de Brasília). Apaixonado por música, filmes e arte, dedica-se a ajudar outras pessoas a lidarem com desafios de saúde mental. Júlio é membro do Juntô Jovem.
Marina da Silva é apaixonada por educação, projetos sociais e fotografia. Participa de projetos dedicados a iniciativas que buscam o bem comum e a redução de desigualdades sociais. Marina é membro do Juntô Jovem.
Camila Fortes Franklin é jornalista, doutora em Informação e Comunicação em Saúde (Fiocruz), com doutorado-sanduíche no Centro de Estudos Sociais na Universidade de Coimbra, em Portugal, e mestre em Comunicação (UFPI). É consultora de comunicação e saúde mental do Juntô – Iniciativa Brasileira do Centro Global da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes no Child Mind Institute (CMI).
Filipe Asth é especialista em relações institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde e secretário executivo da Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental. Psicólogo, mestre em Psicologia pela UFF e doutor em Políticas Públicas pela UERJ.
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