“Nada sobre nós sem nós”: juventude constrói futuro da saúde mental no Brasil

Juntô na Mídia, Nossas Vozes

26 de Novembro, 2025
O primeiro encontro presencial do Juntô Jovem reuniu vozes de todas as regiões do país para repensar as políticas de cuidado
These were days of listening, connection, and reflection on how experiences are collective and shaped by social and political realities; picture: CAMHI BR

Por Daniel Nascimento, Júlio Ruan, Marina da Silva, Camila Fortes Franklin e Filipe Asth (publicado originalmente no Nexo Políticas Públicas, em 25 de novembro de 2025)


De 13 a 15 de outubro, jovens de várias partes do Brasil se reuniram em Brasília para um encontro diferente. O foco foi aproveitar a presença física para trocar ideias e propor ações coletivas sobre saúde mental, como um desdobramento da trilha formativa que vem ocorrendo por meio de reuniões virtuais quinzenais desde abril deste ano. Foram dias de escuta, afeto e reflexões sobre como o que cada um vive não é só individual, mas também coletivo e atravessado pelas realidades sociais e políticas do país.
 

A articulação de políticas de saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil é algo recente: começou a ser pautada na agenda de saúde pública há pouco mais de duas décadas. Nesse sentido, abrir caminhos para que as juventudes estejam à frente não apenas como público-alvo, mas como protagonistas das mudanças que querem ver, é um primeiro passo rumo a uma prática mais participativa e consciente dos direitos. 

Entre um bate-papo e outro, o grupo debateu sobre como a saúde mental não é um tema isolado, mas é o fio que costura as possibilidades de existir com dignidade. Nesse sentido, se houve uma perspectiva comum a todos os jovens ali presentes foi de que não há como falar sobre saúde mental sem falar sobre desigualdade, raça, gênero, acesso e cuidado, e que essas fazem parte das necessidades reais da juventude. Eles carregam a consciência de quem entende que saúde mental não é só ausência de sofrimento, mas também a presença de condições dignas para existir. 

Para Daniel Nascimento, do Juntô Jovem, essas necessidades envolvem mais do que suporte e atenção psicossocial, pois trata-se também do acesso a políticas básicas de dignidade.  

“Em termos de saúde mental, o que nós reivindicamos está na base, ou seja, envolve mais serviços de saúde mental na atenção primária, mais psicólogos, mais equipes multiprofissionais e aparelhos mais qualificados. Mas, além disso, envolve ter uma cidade que seja feita para todos, que considere a segurança, saúde, lazer, cultura e acesso a dispositivos que vão para além de sair de casa, ir para o trabalho e usar um transporte público. Saúde mental envolve tudo isso, e envolve bem-estar e dignidade”, diz Daniel. 

De nada adianta termos leis e políticas nacionais se, na ponta, não houver pessoas sensíveis e engajadas, porque é delas a força que faz as coisas acontecerem

Marina da Silva, do Juntô Jovem

Marina da Silva, também do comitê juvenil do Juntô, complementa: “Nós, enquanto jovens, também estamos reivindicando mais compreensão sobre saúde mental, onde as pessoas consigam tratar o tema com mais seriedade. Às vezes até as escolas podem reproduzir essas violências, por isso, nossa reivindicação envolve a valorização do assunto, com um suporte multiprofissional que acolha as diferenças e que saiba agir e atuar dentro das diversas realidades.”

Daniel: “Antes de pensar em repasses de verba e sucateamento do Sistema Único de Saúde, precisamos falar sobre a importância de se ver a saúde mental como algo básico. Não é mimimi, não é besteira, é algo urgente. As pessoas precisam entender que saúde mental envolve diversas instâncias, e combater os estigmas é o primeiro passo.” 

Vemos então, a potência de reunir jovens de tantos lugares diferentes: perceber que as dores e os sonhos ganham novas dimensões quando se tornam coletivos. Entende-se, assim, que a juventude não quer ser chamada apenas quando o debate já está decidido. Pelo contrário, quer participar do início, desenhar junto, propor soluções que façam sentido para suas realidades e ter autonomia para experimentar o que ainda não existe.  

É o que nos aponta Júlio Ruan Ferreira, do comitê: “Nós jovens estamos sendo ouvidos, porém, precisamos ser ouvidos de forma mais verdadeira e efetiva, com mecanismos de participação genuína, representação autêntica e educação cívica para que nossas vozes sejam consideradas e respeitadas.”       

No encontro, ficou evidente que o futuro da saúde mental precisa avançar para além dos discursos fechados ou dos programas que não escutam a base, pois ele depende da coragem de reconhecer que os jovens conhecem, com precisão, o que os atravessa cotidianamente e que são agentes centrais nessas discussões. Eles sabem o impacto das violências que marcam territórios e corpos, das desigualdades que limitam sonhos, das escolas que não acolhem as diferenças e das cidades que não protegem. 

É por isso que espaços como o Juntô Jovem são urgentes, pois não basta falar sobre juventude; é preciso falar com ela, e mais do que isso, deixar que fale por si. Quando os jovens estão na mesa de decisão, o cuidado deixa de ser uma ideia distante e passa a fazer parte do dia a dia. Políticas pensadas com participação direta da juventude têm mais aderência à realidade, são mais eficazes e evitam soluções distantes de quem vai vivê-las na prática. Ali, onde a política pública encontra a experiência concreta, surgem caminhos mais honestos, mais humanos e, principalmente, mais coletivos e efetivos. 

Momentos marcantes

Em Brasília esses espaços de escuta foram frequentes, mas alguns chamaram atenção: a visita ao primeiro Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) do país, um símbolo da luta antimanicomial e do cuidado comunitário, foi um deles.  

Em seguida, os jovens entregaram ao ministro da Educação, Camilo Santana, e a parlamentares da Frente Parlamentar Mista para a Promoção de Saúde Mental um relatório de monitoramento com propostas sobre a implementação da Política de Saúde Mental nas Escolas –  um documento construído a partir da ação de fiscalização da Frente Parlamentar. O relatório foi analisado e revisado pelos membros do Comitê a partir de suas vivências em cada região. Por fim, participaram de uma reunião com o coordenador nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, para dialogar sobre caminhos de participação efetiva das juventudes nas políticas públicas.  

Ruan: “Esses espaços fortalecem a voz da juventude, influenciam políticas públicas e promovem a participação cidadã, representando uma oportunidade de expressão, empoderamento e desenvolvimento de habilidades para os jovens.” 

Marina: “O encontro mudou a minha forma de enxergar a saúde mental no meu território. Vivendo em uma cidade pequena, percebi que o acesso a esse cuidado não é simples, é um trabalho complexo, que só acontece porque existem profissionais comprometidos em colaborar e cuidar das pessoas. De nada adianta termos leis e políticas nacionais se, na ponta, não houver pessoas sensíveis e engajadas, porque é delas que vem a força que faz as coisas realmente acontecerem.” 

_ 

Daniel Nascimento é conselheiro no Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente e comunicador social na Rede Não Bata, Eduque. Começou a militância no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPSi) Pequeno Hans pela construção e garantia de direitos para crianças e adolescentes. Daniel é membro do Juntô Jovem. 

Júlio Ruan Ferreira é estudante do IFB (Instituto Federal de Brasília). Apaixonado por música, filmes e arte, dedica-se a ajudar outras pessoas a lidarem com desafios de saúde mental. Júlio é membro do Juntô Jovem. 

Marina da Silva é apaixonada por educação, projetos sociais e fotografia. Participa de projetos dedicados a iniciativas que buscam o bem comum e a redução de desigualdades sociais. Marina é membro do Juntô Jovem. 

Camila Fortes Franklin é jornalista, doutora em Informação e Comunicação em Saúde (Fiocruz), com doutorado-sanduíche no Centro de Estudos Sociais na Universidade de Coimbra, em Portugal, e mestre em Comunicação (UFPI). É consultora de comunicação e saúde mental do Juntô – Iniciativa Brasileira do Centro Global da Stavros Niarchos Foundation (SNF) para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes no Child Mind Institute (CMI). 

Filipe Asth é especialista em relações institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde e secretário executivo da Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental. Psicólogo, mestre em Psicologia pela UFF e doutor em Políticas Públicas pela UERJ. 

 

Juntô na Mídia, Nossas Vozes

26 de Novembro, 2025

Queremos saber
sua opinião

Conte pra gente que temas você gostaria de ver no nosso site