Transtorno do Desenvolvimento Intelectual
O Transtorno do Desenvolvimento Intelectual (TDI), também chamado de Deficiência Intelectual, é uma condição que tem início na infância e tende a acompanhar a criança ao longo do desenvolvimento. Pode ser percebido quando a criança apresenta dificuldades em atingir marcos esperados de desenvolvimento cognitivo e adaptativo para sua idade. No entanto, o diagnóstico clínico costuma ser feito apenas após os 5 anos de idade, quando instrumentos como testes de inteligência e escalas de funcionamento adaptativo apresentam maior precisão.
Crianças com TDI apresentam prejuízos nas habilidades cognitivas gerais, com diferentes graus de gravidade. As dificuldades incluem raciocínio, planejamento, julgamento, pensamento abstrato e aprendizagem de novos conteúdos. Essas crianças geralmente enfrentam desafios escolares significativos e podem apresentar dificuldades nas interações sociais e nas tarefas cotidianas, como tomar banho ou se vestir. Frequentemente, seus comportamentos podem ser mal interpretados como desobediência ou agressividade, quando na verdade refletem a dificuldade de compreender normas sociais ou de expressar suas necessidades de forma adequada.
Crianças que não atingem os marcos esperados do desenvolvimento intelectual, mas são muito pequenas ou ainda não conseguem realizar testes padronizados de cognição, podem receber o diagnóstico de Atraso Global do Desenvolvimento. Essa designação é restrita a crianças com menos de 5 anos de idade.
Quais são os sintomas do Transtorno do Desenvolvimento Intelectual?
Os sintomas do TDI envolvem dificuldades de cognição, de compreensão de conceitos abstratos, de relacionamento interpessoal e na realização de tarefas práticas do dia a dia que favorecem a independência. Esses sinais se manifestam precocemente e sua gravidade varia de acordo com o nível do transtorno. Entre os sintomas, destacam-se:
Sintomas centrais:
- Déficits intelectuais, incluindo dificuldades em:
- Raciocínio (por exemplo, compreensão de premissas e consequências, realização de inferências)
- Resolução de problemas
- Planejamento
- Pensamento abstrato (compreensão de ideias e conceitos)
- Julgamento (por exemplo, distinguir certo de errado)
- Desempenho acadêmico
- Capacidade de aprendizagem
- Prejuízo no desenvolvimento de habilidades adaptativas, incluindo:
- Habilidades do cotidiano (comunicação, socialização)
- Desenvolvimento de autonomia pessoal
Sintomas associados:
- Atraso em marcos do desenvolvimento como engatinhar, andar ou falar
- Dificuldade para reter informações, resolver problemas ou aplicar conhecimentos novos
- Desempenho escolar abaixo do esperado
- Dificuldades na comunicação, compreensão de linguagem corporal e sinais sociais
- Problemas para formar e manter amizades
- Dificuldade com tarefas cotidianas, como higiene pessoal, atividades domésticas e manuseio de dinheiro
- Dificuldade em aplicar conhecimentos a novas situações
Como é feito o diagnóstico do Transtorno do Desenvolvimento Intelectual?
O diagnóstico do TDI é realizado por uma equipe multidisciplinar, que pode incluir psiquiatras da infância e adolescência, neuropediatras, geneticistas e outros profissionais, sempre em colaboração com a família. Caso haja suspeita, o psiquiatra infantil poderá aplicar um teste de inteligência (por exemplo, as escalas de Weschler), que avaliam o quociente de inteligência (QI). Escores abaixo de dois desvios padrão da média (QI < 70) indicam prejuízo cognitivo significativo, compatível com TDI.
O diagnóstico não se baseia apenas no QI. A avaliação clínica deve incluir entrevistas com os cuidadores, instrumentos adicionais para mensuração das habilidades adaptativas e observação clínica. A gravidade do transtorno (leve, moderada, grave ou profunda) depende de um conjunto de evidências que considera tanto o desempenho cognitivo quanto as habilidades práticas e sociais da criança.
É fundamental considerar o contexto cultural ao utilizar testes de inteligência, uma vez que muitos instrumentos não são validados em populações minoritárias ou em contextos com recursos limitados. Alguns testes podem ser aplicados a partir dos 2 anos e meio de idade.
Níveis de gravidade do Transtorno do Desenvolvimento Intelectual
(Tabela)
Déficits conceituais
- Leve: Em idade pré-escolar, as dificuldades podem passar despercebidas. Na idade escolar, surgem dificuldades com leitura, escrita, matemática, tempo e dinheiro, exigindo apoio contínuo.
- Moderado: Na idade pré-escolar, há atraso significativo em linguagem e habilidades acadêmicas iniciais. Em idade escolar, o progresso acadêmico é bastante limitado.
- Grave: A compreensão de conceitos como números, tempo ou dinheiro é mínima. A criança depende intensamente de apoio dos cuidadores.
- Profundo: A criança não compreende símbolos como letras ou números, mas pode identificar objetos por aparência e função. Limitações motoras ou sensoriais podem comprometer o uso funcional de objetos.
Déficits sociais
- Leve: Linguagem e comunicação imaturas. Dificuldades emocionais e comportamentais. Vulnerabilidade à manipulação por terceiros, inclusive colegas.
- Moderado: Comunicação limitada, mas relacionamentos familiares e sociais próximos são possíveis.
- Grave: Comunicação verbal restrita a palavras simples e frases curtas. Relacionamentos significativos são possíveis, especialmente com cuidadores próximos.
- Profundo: Compreensão verbal extremamente limitada. A comunicação ocorre por gestos e expressões não verbais. Interações sociais restritas, muitas vezes dificultadas por limitações sensoriais e motoras.
Déficits práticos
- Leve: Algumas atividades de autocuidado são realizadas com autonomia (comer, vestir-se, higiene), mas tarefas mais complexas exigem ajuda.
- Moderado: A criança pode realizar cuidados básicos com treinamento. Atividades domésticas simples podem ser aprendidas, mas com necessidade de supervisão contínua.
- Grave: Todas as habilidades práticas são bastante atrasadas. Algumas atividades podem ser realizadas com assistência. Há risco de comportamentos autolesivos.
- Profundo: Dependência total para as atividades de vida diária, embora algumas crianças participem de cuidados básicos com ajuda. Atividades recreativas são limitadas, geralmente passivas e com supervisão.
Fatos sobre o Transtorno do Desenvolvimento Intelectual
Prevalência mundial:
A condição afeta cerca de 1% da população mundial.
Impacto da condição no Brasil:
Apesar de dados limitados, a prevalência estimada de transtorno do desenvolvimento intelectual é de cerca de 0.5% em crianças (5-9 anos).
Proporção entre os sexos:
Meninos são mais frequentemente diagnosticados com TDI do que meninas, embora isso possa variar com a gravidade e comorbidades associadas.
Quais fatores estão associados ao Transtorno do Desenvolvimento intelectual?
Diversos fatores estão associados ao TDI, especialmente eventos precoces, como:
- Fatores genéticos e familiares: Síndromes genéticas e alterações cromossômicas (por exemplo, síndrome de Down, deleção 22q11.2, síndrome do X-frágil, síndrome de Williams, síndrome de Prader-Willi).
- Fatores pré-natais: Prematuridade extrema (menos de 25 semanas).
- Complicações na gestação: Infecções, uso de substâncias psicoativas, exposição a toxinas (chumbo, mercúrio, certos medicamentos), desnutrição.
- Complicações no parto: Anóxia neonatal, hemorragias graves maternas, traumas durante o parto.
- Complicações pós-natais e na primeira infância: Infecções neurológicas (meningite, encefalite), traumas cranianos, epilepsia, abuso severo.
Quais outros transtornos podem ocorrer junto ao Transtorno da Deficiência Intelectual?
Crianças com TDI frequentemente apresentam outras condições psiquiátricas e médicas, com uma prevalência três a quatro vezes maior do que na população geral. Entre as comorbidades, destacam-se: Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, transtornos depressivos, de ansiedade, transtorno bipolar e transtorno de conduta. Entre os problemas físicos, estão alterações da tireoide, epilepsia, problemas cardíacos, obesidade e constipação intestinal. O acompanhamento pediátrico é essencial para prevenção e manejo dessas condições, incluindo check-ups regulares, triagens hormonais, exames laboratoriais e avaliações clínicas
Como é feito o tratamento do Transtorno do Desenvolvimento Intelectual?
O TDI é uma condição para a vida toda, mas existem formas de atenuar seus efeitos e melhorar a qualidade de vida. Programas de educação especial e reabilitação podem ajudar crianças a aprender habilidades sociais e práticas importantes para a escola e, às vezes, para viver de forma independente na vida adulta. Quanto mais cedo os problemas forem identificados e diagnosticados, melhores os resultados. Diferentes intervenções podem ajudar as famílias de várias maneiras:
- Prevenindo ou minimizando o agravamento dos sintomas: Seguir orientações médicas quanto a exames regulares e ao manejo de outras condições médicas pode ajudar a reduzir problemas de saúde mental. A intervenção precoce, que inclui serviços diagnósticos e terapêuticos para crianças com menos de 3 anos, pode melhorar significativamente a aprendizagem, o comportamento e o funcionamento.
- Limitando prejuízos na vida cotidiana: Serviços como terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia e orientação familiar podem melhorar habilidades do dia a dia, cognitivas e sociais. Medicamentos psiquiátricos podem ajudar com problemas de comportamento e emocionais.
- Apoiando um melhor funcionamento e qualidade de vida: Essas intervenções ajudam crianças e adolescentes com TDI na educação, socialização e formação profissional, preparando-os para a integração na comunidade quando adultos. Adultos com TDI leve e alguns com TDI moderado podem viver de forma independente.
Referências
Clinical description, symptoms, and diagnostic information
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: Fifth edition text revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing.
– Child Mind Institute. (2021). Quick guide to intellectual development disorder. Child Mind Institute. Retrieved 11/17/22, from https://childmind.org/guide/quick-guide-to-intellectual-development-disorder/
– World Health Organization. (2022). 6A00 Disorders of intellectual development. In International statistical classification of diseases and related health problems (11th ed.). https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f605267007
Facts
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: Fifth edition text revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing.
– Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME). (2019). GBD compare data visualization. Seattle, WA: IHME, University of Washington. Available from http://vizhub.healthdata.org/gbd-compare. (Accessed 11/15/2022)
– Kendler, K. S. (2013). What psychiatric genetics has taught us about the nature of psychiatric illness and what is left to learn. Molecular Psychiatry, 18(10), 1058–1066. https://doi.org/10.1038/mp.2013.50
– Maulik, P. K., Mascarenhas, M. N., Mathers, C. D., Dua, T., & Saxena, S. (2011). Prevalence of intellectual disability: A meta-analysis of population-based studies. Research in Developmental Disabilities, 32(2), 419–436. https://doi.org/10.1016/j.ridd.2010.12.018
– Polyak, A., Rosenfeld, J. A., & Girirajan, S. (2015). An assessment of sex bias in neurodevelopmental disorders. Genome Medicine, 7(1), 94. https://doi.org/10.1186/s13073-015-0216-5
– Solmi, M., Radua, J., Olivola, M., Croce, E., Soardo, L., Salazar de Pablo, G., Il Shin, J., Kirkbride, J. B., Jones, P., Kim, J. H., Kim, J. Y., Carvalho, A. F., Seeman, M. V., Correll, C. U., & Fusar-Poli, P. (2022). Age at onset of mental disorders worldwide: Large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Molecular Psychiatry, 27(1), 281–295. https://doi.org/10.1038/s41380-021-01161-7
Associated factors
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: Fifth edition text revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing.
– Glasson, E. J., Buckley, N., Chen, W., Leonard, H., Epstein, A., Skoss, R., Jacoby, P., Blackmore, A. M., Bourke, J., & Downs, J. (2020). Systematic review and meta-analysis: Mental health in children with neurogenetic disorders associated with intellectual disability. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 59(9), 1036–1048. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2020.01.006
– Lichtenstein, P., Tideman, M., Sullivan, P. F., Serlachius, E., Larsson, H., Kuja‐Halkola, R., & Butwicka, A. (2022). Familial risk and heritability of intellectual disability: A population‐based cohort study in Sweden. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 63(9), 1092–1102. https://doi.org/10.1111/jcpp.13560
– Kendler, K. S. (2013). What psychiatric genetics has taught us about the nature of psychiatric illness and what is left to learn. Molecular Psychiatry, 18(10), 1058–1066. https://doi.org/10.1038/mp.2013.50
Co-occurring disorders
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: Fifth edition text revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing.
– Buckley, N., Glasson, E. J., Chen, W., Epstein, A., Leonard, H., Skoss, R., Jacoby, P., Blackmore, A. M., Srinivasjois, R., Bourke, J., Sanders, R. J., & Downs, J. (2020). Prevalence estimates of mental health problems in children and adolescents with intellectual disability: A systematic review and meta-analysis. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, 54(10), 970–984. https://doi.org/10.1177/0004867420924101
Interventions
– Ke, X., & Liu, J. (2020). Intellectual disability. In J. M. Rey & A. Martin (Eds.), JM Rey’s IACAPAP textbook of child and adolescent mental health (p. 25). International Association for Child and Adolescent Psychiatry and Allied Professions.
– Sheerin, F., Eustace-Cook, J., Wuytack, F., & Doyle, C. (2021). Medication management in intellectual disability settings: A systematic review. Journal of Intellectual Disabilities, 25(2), 242–276. https://doi.org/10.1177/1744629519886184
Onde encontrar
mais informações
Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.
O que você
achou dos guias?
Conte pra gente o que você achou dos guias! Sua opinião pode nos ajudar a melhorá-los. Existe algum tema que você procurou e não achou?