Transtorno de Tique
Tiques são movimentos ou sons que acontecem de forma repentina, sem ritmo, e se repetem várias vezes. Quando uma criança ou adolescente desenvolve um tique, isso pode assustar os cuidadores. Eles podem se perguntar se as tosses leves ou piscadas vão parar algum dia ou se representam algo mais sério. Se uma criança apresenta um tique, os especialistas recomendam consultar um(a) médico(a) para confirmar que se trata mesmo de um tique. Mas, na maioria das vezes, os pais são orientados a apenas observar e esperar antes de tomar qualquer outra medida. O tratamento só é necessário quando os tiques se tornam persistentes e causam problemas.
Quais são os sintomas de um Transtorno de Tique?
Tiques são movimentos ou sons rápidos e repetitivos. A maioria é chamada de tiques “simples”, o que significa que envolvem um único movimento, como apertar os olhos ou balançar rapidamente a cabeça. Alguns são chamados de tiques “complexos”, o que significa que envolvem combinações maiores de movimentos ou sons, como levantar o braço e balançar a cabeça ao mesmo tempo, ou piscar seguido de um som de pigarro.
Tiques Motores
- Encolher os ombros
- Piscar os olhos
- Morder os lábios
- Fazer caretas com o rosto
Tiques Vocais
- Limpar a garganta
- Cantarolar, fungar, bufar ou guinchar
- Repetir palavras
Existem diferentes tipos de Transtornos de Tique, cada um com sintomas ligeiramente distintos:
- Transtorno de Tique Provisório: Envolve tiques motores e/ou vocais únicos ou múltiplos presentes há menos de um ano.
- Transtorno de Tique Motor ou Vocal Persistente (Crônico): Envolve tiques motores ou vocais únicos ou múltiplos, mas não ambos, que estão presentes há mais de um ano.
- Transtorno de Tourette: Envolve múltiplos tiques motores e pelo menos um vocal, presentes há mais de um ano.
Os tiques de uma criança ou adolescente podem aparecer e desaparecer ao longo do tempo, mas precisam começar antes dos 18 anos de idade. Além disso, os tiques não podem ser causados por uma substância ou uma condição médica para que se estabeleça o diagnóstico de Transtorno de Tique.
Como os Transtornos de Tique são diagnosticados?
um(a) médico(a) faz o diagnóstico de Transtorno de Tique em uma criança ou adolescente após verificar se os movimentos ou sons atendem aos critérios diagnósticos e por quanto tempo os tiques têm ocorrido.
O psiquiatra da infância e adolescência pode entrevistar e/ou avaliar tanto a criança ou adolescente quanto o cuidador para entender melhor a natureza específica dos tiques. O(a) profissional também tentará confirmar que os tiques não são causados por algo inesperado.
Fatos sobre Transtorno de Tique
Prevalência mundial: Tiques estão presentes em cerca de 0,03% a 3% da população mundial, e o Transtorno de Tourette afeta cerca de 0,03% a 0,77%. Atualmente, não há dados nacionais representativos no Brasil.
Proporção entre os sexos: Os dados comparativos entre meninos e meninas variam de 2:1 a 4:1 para tiques e Transtorno de Tourette.
Idade mais comum de início: Os tiques tendem a começar na infância, entre 4 e 6 anos de idade, com pico entre 10 e 12 anos. A idade média de início para transtornos do neurodesenvolvimento, em geral, é de 5,5 anos.
Proporção dos casos que surgem antes dos 18 anos: Tiques que não são causados por uma substância ou doença médica devem começar antes dos 18 anos. Portanto, 100% dos indivíduos com Transtorno de Tique serão diagnosticados até os 18 anos. Em comparação, a proporção dos transtornos do neurodesenvolvimento em geral (incluindo Transtornos de Tique) que surgem antes dos 18 anos é de 83,2%.
Quais são os fatores associados aos Transtornos de Tique?
Alguns fatores comuns associados aos Transtornos de Tique incluem:
- Fatores genéticos e familiares: Provavelmente uma combinação de múltiplos genes interagindo com fatores ambientais.
- Fatores do desenvolvimento: Incluem parto prematuro e baixo peso ao nascer.
- Complicações durante a gestação: Incluem o uso de nicotina ou cafeína durante a gravidez.
- Complicações no parto: Incluem a falta de oxigênio (hipóxia).
- Fatores ambientais: Situações de excitação, ansiedade ou cansaço podem piorar os tiques.
- Infecções e resposta imunológica: A síndrome neuropsiquiátrica pediátrica de início agudo (PANS) resulta de uma infecção bacteriana ou viral, desencadeando uma resposta autoimune em certas crianças. O transtorno neuropsiquiátrico autoimune pediátrico associado a infecções por estreptococos (PANDAS) é um subtipo específico de PANS causado por infecção estreptocócica. Os sintomas de PANS e PANDAS incluem tiques súbitos, sintomas de TOC e alterações de humor.
Quais outros transtornos ocorrem junto com os Transtornos de Tique?
Embora cada criança ou adolescente seja diferente, os Transtornos de Tique frequentemente ocorrem em conjunto com outros transtornos de saúde mental, incluindo Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e Transtorno Obsessivo Compulsivo.
Como os Transtornos de Tique são tratados?
Os Transtornos de Tique geralmente são tratados com terapia ou com uma combinação de terapia e medicação.
A terapia para Transtornos de Tique geralmente envolve a terapia cognitivo-comportamental (TCC) com um componente chamado treino de reversão de hábito (HRT). Se a criança percebe uma sensação antes do tique, ela é ensinada a reconhecê-la e identificar situações que possam desencadeá-la. A criança e o terapeuta desenvolvem uma resposta “competitiva”, uma ação que a criança realiza ao sentir o impulso, que seja diferente do tique e menos perceptível para os outros. Por exemplo, uma criança cujo tique envolve fungar pode fazer um exercício de respiração em vez disso. As crianças também podem aprender técnicas de relaxamento para reduzir a frequência dos tiques. Outro componente da TCC, a prevenção de exposição e resposta (ERP), ajuda as crianças a prevenir os tiques ao aprender sobre e resistir às sensações que sentem antes que o tique ocorra. Quando resistem ao tique por um tempo prolongado, elas aprendem a lidar melhor com essas sensações de aviso (ou seja, se habituam).
Crianças e adolescentes com Transtornos de Tique tendem a responder bem a certos medicamentos, especialmente quando os sintomas são moderados a graves. O medicamento mais usado é chamado aripiprazol. Embora outros tipos de medicamentos também tenham sido estudados (como risperidona e tiapride), as evidências sobre sua eficácia em crianças ainda são limitadas. Quando os sintomas ocorrem junto com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), medicamentos como clonidina e guanfacina também podem ser considerados. Os medicamentos podem ter efeitos colaterais, mas são seguros para uso em crianças com o devido acompanhamento médico e supervisão próxima dos cuidadores. A criança ou adolescente que fizer uso desses medicamentos deve consultar o(a) médico(a) regularmente, especialmente se a dosagem foi alterada recentemente.
A combinação de TCC e medicação também pode ser considerada.
Referências
Clinical description, symptoms, and diagnostic information
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: Fifth Edition Text Revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing, Washington, DC.
– Child Mind Institute. (2021, September 7). Quick guide to Tourette’s Disorder. _https://childmind.org/guide/quick-guide-to-tourettes-disorder/_
– Child Mind Institute. (2022, December 20). Quick guide to chronic motor or vocal tic disorder. _https://childmind.org/guide/what-is-chronic-motor-or-vocal-tic-disorder/_
– Jacobson, R. (2022, December 20). Tics and Tourette’s: What to do (and not do) if your child develops a tic. _https://childmind.org/article/tics-and-tourettes/_
– World Health Organization. (2022, February). ICD-11 for mortality and morbidity statistics. 8A05.00 Tourette Syndrome. _https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f119340957_
– World Health Organization. (2022, February). ICD-11 for mortality and morbidity statistics. 8A05.01 Chronic Motor Tic Disorder. _https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f1649340159_
– World Health Organization. (2022, February). ICD-11 for mortality and morbidity statistics. 8A05.02 Chronic Phonic Tic Disorder. _https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f169010223_
Facts
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: Fifth Edition Text Revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing, Washington, DC.
– Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME). (2019). GBD Compare Data Visualization. Seattle, WA: IHME, University of Washington. Available from _http://vizhub.healthdata.org/gbd-compare_. (Accessed 11/15/2022)
– Kendler, K. S. (2013). What psychiatric genetics has taught us about the nature of psychiatric illness and what is left to learn. Molecular Psychiatry, 18(10), 1058–1066. _https://doi.org/10.1038/mp.2013.50_
– Knight, T., Steeves, T., Day, L., Lowerison, M., Jette, N., & Pringsheim, T. (2012). Prevalence of Tic Disorders: A Systematic Review and Meta-Analysis. Pediatric Neurology, 47(2), 77–90. _https://doi.org/10.1016/j.pediatrneurol.2012.05.002_
– Scharf, J. M., Miller, L. L., Gauvin, C. A., Alabiso, J., Mathews, C. A., & Ben-Shlomo, Y. (2015). Population prevalence of Tourette syndrome: A systematic review and meta-analysis: Meta-Analysis of TS Prevalence. Movement Disorders, 30(2), 221–228. _https://doi.org/10.1002/mds.26089_
– Solmi, M., Radua, J., Olivola, M., Croce, E., Soardo, L., Salazar de Pablo, G., Il Shin, J., Kirkbride, J. B., Jones, P., Kim, J. H., Kim, J. Y., Carvalho, A. F., Seeman, M. V., Correll, C. U., & Fusar-Poli, P. (2022). Age at onset of mental disorders worldwide: Large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Molecular Psychiatry, 27(1), 281–295. _https://doi.org/10.1038/s41380-021-01161-7_
– Ueda, K., & Black, K. J. (2021). A Comprehensive Review of Tic Disorders in Children. Journal of Clinical Medicine, 10(11), 2479. _https://doi.org/10.3390/jcm10112479_
Associated factors
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: Fifth Edition Text Revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing, Washington, DC.
– Chao, T.-K., Hu, J., & Pringsheim, T. (2014). Prenatal risk factors for Tourette Syndrome: A systematic review. BMC Pregnancy and Childbirth, 14(1), 53. _https://doi.org/10.1186/1471-2393-14-53_
– Child Mind Institute. (2023, February 23). Complete guide to PANS and PANDAS. _https://childmind.org/guide/parents-guide-to-pans-and-pandas/_
– Girgis, J., & Pringsheim, T. (2020). Prenatal Risk Factors for Tourette Syndrome: A Systematic Review Update. Current Developmental Disorders Reports, 7(4), 258–269. _https://doi.org/10.1007/s40474-020-00217-7_
– Jiang, J., Chen, M., Huang, H., & Chen, Y. (2022). The Aetiology of Tourette Syndrome and Chronic Tic Disorder in Children and Adolescents: A Comprehensive Systematic Review of Case-Control Studies. Brain Sciences, 12(9), 1202. _https://doi.org/10.3390/brainsci12091202_
– Kendler, K. S. (2013). What psychiatric genetics has taught us about the nature of psychiatric illness and what is left to learn. Molecular Psychiatry, 18(10), 1058–1066. _https://doi.org/10.1038/mp.2013.50_
– Ueda, K., & Black, K. J. (2021). A Comprehensive Review of Tic Disorders in Children. Journal of Clinical Medicine, 10(11), 2479. _https://doi.org/10.3390/jcm10112479_
Co-occurring disorders
– American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: Fifth Edition Text Revision DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing, Washington, DC.
– Hirschtritt, M. E., Lee, P. C., Pauls, D. L., Dion, Y., Grados, M. A., Illmann, C., King, R. A., Sandor, P., McMahon, W. M., Lyon, G. J., Cath, D. C., Kurlan, R., Robertson, M. M., Osiecki, L., Scharf, J. M., & Mathews, C. A. (2015). Lifetime Prevalence, Age of Risk, and Genetic Relationships of Comorbid Psychiatric Disorders in Tourette Syndrome. JAMA Psychiatry, 72(4), 325. _https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2014.2650_
– Kloft, L., Steinel, T., & Kathmann, N. (2018). Systematic review of co-occurring OCD and TD: Evidence for a tic-related OCD subtype? Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 95, 280–314. _https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2018.09.021_
– Rothenberger, A., & Heinrich, H. (2022). Co-Occurrence of Tic Disorders and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder—Does It Reflect a Common Neurobiological Background? Biomedicines, 10(11), 2950. _https://doi.org/10.3390/biomedicines10112950_
Interventions
– Andrén, P., Jakubovski, E., Murphy, T. L., Woitecki, K., Tarnok, Z., Zimmerman-Brenner, S., van de Griendt, J., Debes, N. M., Viefhaus, P., Robinson, S., Roessner, V., Ganos, C., Szejko, N., Müller-Vahl, K. R., Cath, D., Hartmann, A., & Verdellen, C. (2022). European clinical guidelines for Tourette syndrome and other tic disorders—version 2.0. Part II: Psychological interventions. European Child & Adolescent Psychiatry, 31(3), 403–423. _https://doi.org/10.1007/s00787-021-01845-z_
– Besag, F. M., Vasey, M. J., Lao, K. S., Chowdhury, U., & Stern, J. S. (2021). Pharmacological treatment for Tourette syndrome in children and adults: What is the quality of the evidence? A systematic review. Journal of Psychopharmacology, 35(9), 1037–1061. _https://doi.org/10.1177/02698811211032445_
– Farhat, L. C., Behling, E., Landeros-Weisenberger, A., Levine, J. L. S., Macul Ferreira de Barros, P., Wang, Z., & Bloch, M. H. (2022). Comparative efficacy, tolerability, and acceptability of pharmacological interventions for the treatment of children, adolescents, and young adults with Tourette’s syndrome: A systematic review and network meta-analysis. The Lancet Child & Adolescent Health. _https://doi.org/10.1016/S2352-4642(22)00316-900316-9)_
– Pringsheim, T., Holler-Managan, Y., Okun, M. S., Jankovic, J., Piacentini, J., Cavanna, A. E., Martino, D., Müller-Vahl, K., Woods, D. W., Robinson, M., Jarvie, E., Roessner, V., & Oskoui, M. (2019). Comprehensive systematic review summary: Treatment of tics in people with Tourette syndrome and chronic tic disorders. Neurology, 92(19), 907–915. _https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000007467_
– Pringsheim, T. (2017). Tic Severity and Treatment in Children: The Effect of Comorbid Attention Deficit Hyperactivity Disorder and Obsessive Compulsive Behaviors. Child Psychiatry & Human Development, 48(6), 960–966. _https://doi.org/10.1007/s10578-017-0718-z_
– Roessner, V., Eichele, H., Stern, J. S., Skov, L., Rizzo, R., Debes, N. M., Nagy, P., Cavanna, A. E., Termine, C., Ganos, C., Münchau, A., Szejko, N., Cath, D., Müller-Vahl, K. R., Verdellen, C., Hartmann, A., Rothenberger, A., Hoekstra, P. J., & Plessen, K. J. (2022). European clinical guidelines for Tourette syndrome and other tic disorders—version 2.0. Part III: Pharmacological treatment. European Child & Adolescent Psychiatry, 31(3), 425–441. _https://doi.org/10.1007/s00787-021-01899-z_
– Ueda, K., & Black, K. J. (2021). A comprehensive review of tic disorders in children. Journal of Clinical Medicine, 10(11), 2479. _https://doi.org/10.3390/jcm10112479_
Onde encontrar
mais informações
Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.
O que você
achou dos guias?
Conte pra gente o que você achou dos guias! Sua opinião pode nos ajudar a melhorá-los. Existe algum tema que você procurou e não achou?