Transtorno de Ansiedade de Separação
É natural que crianças fiquem ansiosas quando estão longe de seus cuidadores, especialmente nas primeiras vezes. Esse incômodo pode incluir apego excessivo, choro ou dificuldade para se acalmar depois que o cuidador vai embora. Esses sentimentos geralmente são leves e desaparecem rapidamente.
Crianças com Transtorno de Ansiedade de Separação, no entanto, sentem uma ansiedade extrema quando estão longe de seus cuidadores. Além de temerem a separação, elas podem se preocupar com a possibilidade de algo ruim acontecer com elas ou com seus familiares durante esse período, o que pode levar a pesadelos, recusa em sair de casa e diversos sintomas físicos.
O transtorno é mais comum em crianças pequenas em idade pré-escolar, mas também pode ocorrer em crianças mais velhas e adolescentes.
Quais são os sintomas do Transtorno de Ansiedade de Separação?
O medo, a ansiedade ou a evitação vivenciados por crianças com esse transtorno são significativamente maiores do que o esperado para a sua idade.
Os sintomas específicos incluem:
Sintomas principais
- Sofrimento ou angústia ao pensar ou vivenciar a separação de um cuidador
- Preocupação de que algo ruim aconteça ao cuidador (por exemplo, doença, ferimento, morte)
- Medo de que um evento inesperado leve à separação do cuidador (por exemplo, se perder, ser sequestrado, sofrer um acidente, adoecer)
- Recusa ou resistência em sair de casa (por exemplo, para ir à escola ou brincar com um(a) amigo(a)) por medo da separação
- Recusa ou resistência em ficar sozinho(a) em casa ou em outros ambientes sem a presença de um cuidador (por exemplo, seguir o cuidador pela casa)
- Recusa ou resistência em dormir longe de um cuidador
- Pesadelos frequentes sobre separação ou acontecimentos ruins com os cuidadores
- Queixas físicas frequentes (por exemplo, dor de barriga, dor de cabeça, tontura) ao pensar ou vivenciar a separação de um cuidador.
Como é feito o diagnóstico do Transtorno de Ansiedade de Separação?
Um(a) psiquiatra da infância e adolescência faz o diagnóstico após avaliar se o medo, a ansiedade ou a evitação atendem aos critérios diagnósticos; se os sintomas persistem por pelo menos quatro semanas; e se causam prejuízos significativos na vida cotidiana (por exemplo, social, escolar etc.). A ansiedade de separação grave pode se desenvolver mesmo em crianças e adolescentes que não apresentaram dificuldades com separação anteriormente.
O psiquiatra pode avaliar tanto a criança quanto o cuidador para entender melhor a natureza específica da ansiedade de separação. Muitos profissionais também utilizam questionários ou escalas de avaliação de comportamento e emoções para auxiliar no diagnóstico e mensurar a gravidade do problema.
Fatos sobre o transtorno de ansiedade de separação
Frequência mundial da condição:
Estima-se que o Transtorno de Ansiedade de Separação esteja presente em cerca de 4% da população mundial, embora essa frequência varie de acordo com a faixa etária. Os Transtornos de Ansiedade, em geral, são estimados em 6,5% da população mundial.
Impacto da condição no Brasil:
Apesar de dados limitados, a estimativa de prevalência de transtornos de ansiedade no Brasil é de 2.9% em crianças (5-9 anos) e 8.6% em adolescentes (10-19 anos). Ansiedade de Separação é um tipo de transtorno de ansiedade, e em relação a ele isoladamente, não há dados nacionalmente representativos.
Proporção entre os sexos:
O diagnóstico é igualmente frequente entre meninos e meninas em idade pré-escolar, mas se torna mais comum em meninas durante os anos escolares, embora as estimativas possam variar.
Idade mais comum de início A idade de início mais comum está entre 7 e 9 anos, um pouco mais tarde do que a média para os transtornos de ansiedade em geral, que é de 5,5 anos.
Proporção dos casos iniciados antes dos 18 anos: Segundo dados recentes, 75% das pessoas com Transtorno de Ansiedade de Separação terão sido diagnosticadas antes dos 18 anos.
Quais fatores estão associados ao Transtorno de Ansiedade de Separação?
Alguns fatores comuns associados ao Transtorno de Ansiedade de Separação são:
- Fatores genéticos e familiares: A predisposição a transtornos de ansiedade provavelmente decorre de uma combinação de múltiplos genes e fatores ambientais.
- Fatores ambientais: Eventos estressantes, como perda de um parente ou animal de estimação, presença de doença grave em um familiar, mudanças de escola, separação ou divórcio dos cuidadores, mudança de residência ou imigração, e separação do cuidador durante momentos de estresse (por exemplo, desastres naturais) podem estar associados ao desenvolvimento do transtorno.
Quais outros transtornos ocorrem simultaneamente ao Transtorno de Ansiedade de Separação?
Embora cada criança seja diferente, é comum que o Transtorno de Ansiedade de Separação coexista com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Fobia Específica em crianças.
Como o transtorno de ansiedade de separação é tratado?
O tratamento geralmente envolve psicoterapia ou uma combinação de psicoterapia e medicação. A participação de cuidadores e outros membros da família é essencial, pois eles ajudam a criança ou adolescente a praticar as habilidades aprendidas na terapia.
Diversas abordagens terapêuticas são eficazes para tratar os sintomas, mas a com mais evidências é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
A TCC utiliza diversas técnicas cognitivas e comportamentais, incluindo a técnica de exposição. Nesse método, o terapeuta expõe a criança a situações que desencadeiam ansiedade, começando por situações leves. À medida que a criança fica ansiosa, o terapeuta ensina estratégias para lidar com o medo. Com o tempo, são introduzidas situações mais difíceis. A TCC em grupo tem se mostrado especialmente útil para crianças e adolescentes.
Crianças e adolescentes com o transtorno também costumam responder bem a certos antidepressivos, conhecidos como inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs), como fluoxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e paroxetina.
Outras medicações eficazes incluem os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSNs), como duloxetina e venlafaxina. Benzodiazepínicos (como alprazolam, lorazepam, diazepam) e antidepressivos tricíclicos (como clomipramina, amitriptilina) não são eficazes em crianças e adolescentes e não devem ser utilizados.
Embora essas medicações possam causar efeitos colaterais, elas são seguras quando utilizadas com o acompanhamento adequado de um(a) psiquiatra da infância e adolescência e com a supervisão rigorosa dos cuidadores. Crianças e adolescentes que fazem uso dessas medicações devem ser avaliados regularmente pelo(a) médico(a), especialmente após ajustes na dose.
A combinação de TCC com ISRSs ou IRSNs também pode ser considerada, já que alguns estudos indicam que essa abordagem combinada pode ser mais eficaz do que qualquer um dos tratamentos isoladamente.
Referências
Clinical description, symptoms, and diagnostic information
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