Ter lembranças ou sentimentos ruins sobre uma experiência muito estressante
Este guia foi preparado especialmente para todas as pessoas que cuidam de crianças e adolescentes, e que se preocupam com a saúde mental deles. Se você é mãe, pai, avó, avô, tio, tia, madrinha, padrinho ou exerce qualquer papel de cuidado, aqui você encontrará informações acessíveis e úteis para apoiar quem está crescendo sob sua responsabilidade.
Crianças e adolescentes podem viver situações que os fazem sentir medo, insegurança ou tristeza intensa. Essas experiências, como violência, abuso, negligência, desastres climáticos ou acidentes, podem ser traumáticas e acontecer uma única vez ou se repetir ao longo do tempo.
Nem toda criança ou adolescente vai reagir da mesma forma a algo difícil. Algumas podem se recuperar rapidamente. Outras, no entanto, continuam sentindo o impacto emocional por muito tempo, mesmo que o evento tenha acontecido com outra pessoa próxima.
Essas reações não significam que a criança ou adolescente seja “fraca” ou “dramatize”. Elas são respostas reais do cérebro e do corpo a uma memória que ainda parece perigosa, mesmo estando no passado.
O que é esperado?
É natural que crianças e adolescentes fiquem abalados após um evento difícil ou assustador. Nas semanas seguintes, podem aparecer comportamentos que fazem parte do processo de adaptação e não significam, por si só, um problema grave.
Logo após o evento:
- Pode haver maior irritação, choro frequente, dificuldade para dormir ou vontade de ficar sempre perto dos cuidadores.
- Crianças pequenas podem voltar a ter comportamentos de fases anteriores, como fazer xixi na cama ou chupar o dedo.
- Adolescentes podem se mostrar mais fechados, com mudanças no humor ou na forma de se relacionar.
- A criança ou adolescente pode tentar evitar qualquer coisa que lembre o que aconteceu, lugares, pessoas, atividades, conversas ou até mesmo conteúdos na TV e na internet.
- Podem surgir pesadelos, flashbacks ou lembranças desagradáveis do que ocorreu.
- É comum sentir ansiedade, raiva, tristeza ou até culpa.
- Reações de susto diante de sons, imagens ou situações que lembrem o evento.
Essas reações costumam melhorar com o tempo, especialmente quando a criança ou adolescente se sente acolhido(a). Mas se o sofrimento continuar por mais de um mês, chegando a atrapalhar o dia a dia e provocando sofrimento constante, vale buscar ajuda.
Quando devo me preocupar?
Depois de uma experiência muito estressante ou assustadora, é natural que crianças e adolescentes apresentem algumas mudanças de comportamento ou de humor. Essas reações fazem parte do processo de adaptação.
No entanto, se os sinais de sofrimento persistirem por mais de quatro semanas e começarem a atrapalhar o dia a dia, é hora de ficar atento. Confira alguns sinais que merecem atenção.
Reviver a experiência com frequência:
- Brincadeiras que repetem o que aconteceu
- Pensamentos ou imagens ruins que surgem sozinhos
- Pesadelos frequentes
- Medo intenso ao lembrar, com reações físicas como tremores, falta de ar ou dor de barriga
Evitação persistente
- Se recusar a ir a determinados lugares ou ver certas pessoas
- Evitar falar ou pensar sobre o que aconteceu
- Mudança de interesse: perder o interesse pela escola ou por hobbies
Mudanças no humor e comportamento
- Irritação frequente ou birras incomuns
- Medo de se afastar dos cuidadores
- Tristeza profunda, sentimentos de culpa ou vergonha
- Falta de interesse por coisas que gostava (escola, amigos, etc)
Sinais de ansiedade constante
- Dificuldade de concentração
- Sono agitado
- Sustos fáceis
- Ficar sempre em alerta, como se algo ruim fosse acontecer.
O que posso fazer para ajudar?
O(a) cuidador(a) tem papel central em observar, validar e agir, garantindo que a criança ou adolescente não enfrente esse processo sozinho(a) e que receba a ajuda adequada para lidar com o impacto da experiência vivida.
O apoio de um adulto de confiança pode fazer toda a diferença.
Veja algumas maneiras de ajudar:
- Ofereça acolhimento e segurança emocional. Mostre que você está disponível para ouvir, sem pressionar. Diga que está tudo bem sentir medo, tristeza ou raiva. Acolher os sentimentos da criança transmite segurança e ajuda a reduzir o sofrimento.
- Mantenha uma rotina estável. Rotinas previsíveis ajudam a restaurar a sensação de controle e segurança. Sempre que possível, mantenha horários e hábitos familiares (refeições, brincadeiras, hora de dormir).
- Crie momentos de conexão. Reserve tempo para estar junto, mesmo em atividades simples como brincar, ler ou conversar. A conexão afetiva fortalece o vínculo e transmite a mensagem de que seu(sua) filho(a) não está sozinho(a) e que ele(a) pode se sentir protegido(a).
- Fale com calma sobre o que aconteceu, se seu(sua) filho(a) quiser. Se seu(sua) filho(a) quiser falar sobre o evento, escute com atenção e sem julgamentos. Evite pressionar ou insistir. Deixe claro que ele(a) pode conversar quando quiser.
- Evite exposição a conteúdos que lembrem o que aconteceu de forma intensa, como certas notícias ou filmes.
- Reforce sentimentos de competência e autoestima. Valorize pequenas conquistas e incentive seu(sua) filho(a) a fazer o que gosta e sabe fazer bem. Isso ajuda a recuperar a autoconfiança.
- Ensine formas de se acalmar. Ajude seu(sua) filho(a) a identificar estratégias que funcionam para ele(a), como respirar fundo, abraçar um brinquedo, ouvir música ou desenhar. Dê o exemplo usando essas técnicas junto com ele(a).
- Esteja atento a mudanças persistentes. Se os sintomas durarem mais de um mês ou piorarem, busque apoio de um(a) profissional de saúde mental. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é cuidado.
O(a) cuidador(a) deve estar atento aos sinais e, se perceber que os sintomas não melhoram, deve encaminhar para atendimento especializado. A escuta acolhedora e a paciência são partes essenciais da recuperação.
Que tipo de apoio profissional posso buscar?
Se você está preocupado com o sofrimento do seu(sua) filho(a) após um evento traumático, especialmente se isso parecer durar muito tempo, saiba que existe ajuda disponível.
É possível buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde a equipe de saúde pode fazer o primeiro acolhimento e encaminhar para serviços especializados, se necessário.
Outras formas de atendimento também estão disponíveis em:
- Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): oferecem atendimento contínuo e especializado para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico mais intenso.
- Centros de Especialidades Médicas e Psicossociais: presentes em algumas cidades, com equipes multiprofissionais.
- Ambulatórios de hospitais universitários ou regionais: muitas vezes oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.
O suporte profissional não apenas ajuda na superação dos sintomas, mas também fortalece recursos internos para que a criança ou adolescente se sinta novamente capaz de enfrentar desafios e retomar seu bem-estar.
Quanto mais cedo esse cuidado for iniciado, maiores são as chances de recuperação completa e de prevenção de problemas emocionais no futuro.
Onde encontrar
mais informações
Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.
O que você
achou dos guias?
Conte pra gente o que você achou dos guias! Sua opinião pode nos ajudar a melhorá-los. Existe algum tema que você procurou e não achou?