Ter lembranças ou sentimentos ruins sobre uma experiência muito estressante

Ao longo da vida, todo mundo passa por situações difíceis. Algumas delas podem ser muito perturbadoras e causar um grande impacto emocional.

A isso damos o nome de experiências traumáticas, ou seja, situações que envolvem risco (real ou percebido) à vida, segurança ou bem-estar. Isso pode incluir violência, abuso, negligência, desastres climáticos, acidentes ou a perda de alguém importante.

Cada pessoa sente e reage de um jeito. Nem todo mundo vive essas experiências como um trauma. Mas, para algumas pessoas, até ouvir sobre o que aconteceu com alguém querido pode ser muito doloroso. Mesmo depois que o perigo passa, é como se a lembrança ficasse grudada na cabeça e no corpo.

É esperado ficar abalado(a) depois de algo assim e muitas pessoas melhoram com o tempo. Mas, se o sofrimento continua por muito tempo, é importante buscar apoio.

Isso não significa que você está “fraco(a)” ou “dramático(a)”, ok? Significa que seu cérebro está tentando te proteger, mas acabou ficando preso no modo alerta.

O que é esperado?

Depois de viver algo assustador, é comum:

  • Sentir medo, tristeza ou raiva com mais frequência nos primeiros dias ou semanas após o evento.
  • Ter dificuldades para dormir ou se concentrar.
  • Evitar pessoas, lugares ou situações que lembrem o que aconteceu.
  • Ter pesadelos ou relembrar o evento com intensidade.
  • Ficar mais sensível ou irritado(a).

Essas reações são esperadas, pois passar por uma situação ou evento difícil pode deixar a gente muito abalado. Não há nada de errado com essas reações, pois elas apenas sinalizam o que você está sentindo.

Com apoio e tempo, a maioria das pessoas começa a se sentir melhor. Mas, se os sintomas durarem mais de um mês ou atrapalharem sua vida, pode ser sinal de que você, ou um(a) amigo(a), precisa de ajuda.

Quando devo me preocupar?

Fique atento(a) se, um mês ou mais após o evento, você (ou alguém próximo) apresentar:

1. Lembranças e reações fortes, tais como

  • Pensamentos ou imagens ruins que surgem sem querer ou sem esperar e geram um intenso desconforto.
  • Pesadelos ou sensação de reviver o que aconteceu.
  • Sentir-se mal fisicamente ao lembrar do ocorrido (coração acelerado, suor, tremores, dor de barriga).

2. Evitação

  • Querer evitar qualquer coisa que lembre o trauma: lugares, pessoas, conversas, objetos.
  • Recusar-se a falar sobre o que aconteceu ou mudar de assunto sempre que ele surge.

3. Mudanças de humor ou visão de mundo

  • Irritação constante, choro fácil ou sensação de estar “desligado(a)”.
  • Sentimentos de culpa, vergonha ou raiva que não passam.
  • Pensar que o mundo é perigoso ou que não dá para confiar em ninguém.
  • Perder o interesse pela escola ou por atividades que antes gostava.

4. Estado de alerta constante

  • Sustos fáceis, dificuldade para relaxar.
  • Dificuldade para dormir ou descansar.
  • Reclamar de dores de cabeça ou de estômago com frequência.

Esses sinais podem acontecer com qualquer pessoa que passou por uma experiência difícil.

Isso não significa que a pessoa seja “fraca”, mas significa que a experiência foi muito intensa e que deixou marcas profundas.

Esses sinais nos dizem que se isso estiver acontecendo com você, você pode estar precisando de ajuda para lidar com algo que está sendo pesado demais para lidar sozinho(a).

O que posso fazer se eu (ou um(a) amigo(a)) estiver passando por isso?

Ninguém precisa enfrentar momentos difíceis sozinho(a). É possível ser um apoio importante para alguém que esteja passando por isso.

Algumas atitudes podem ajudar no processo de lidar com o impacto de uma experiência traumática:

  1. Buscar alguém de confiança. Conversar com um adulto de confiança, como um(a) cuidador(a), parente, professor(a), conselheiro(a) ou alguém da escola, pode ser um passo importante para se sentir mais seguro e compreendido. Ter alguém para te ouvir já é um ótimo passo!
  2. Entender que a culpa não é da pessoa impactada. Sentimentos de culpa ou vergonha são comuns após experiências difíceis, mas é importante lembrar que a responsabilidade pelo que aconteceu não é da pessoa impactada. Reconhecer isso pode aliviar o peso emocional.
  3. Falar com pessoas próximas. Compartilhar com amigos ou familiares pode trazer alívio e ajudar a não se sentir isolado(a). Estar em contato com pessoas queridas fortalece a sensação de apoio.
  4. Manter uma rotina. Seguir com atividades do dia a dia contribui para restaurar o senso de normalidade e estabilidade emocional.
  5. Cuidar do corpo e da mente. Dormir bem, alimentar-se de forma saudável, fazer atividades físicas e reservar momentos para coisas prazerosas ajudam a fortalecer o bem-estar. No começo pode parecer difícil retomar à rotina, mas cada passo conta para o seu bem-estar!
  6. Reconhecer as próprias qualidades. Lembrar das próprias habilidades, valores e características positivas pode reforçar a autoestima e a confiança para lidar com os desafios. Faça uma lista das coisas que você admira em si mesmo! Seja gentil consigo!
  7. Buscar novas conexões. Participar de atividades sociais, clubes ou grupos de interesse, pode aumentar a sensação de pertencimento e ampliar a rede de apoio.
  8. Praticar estratégias de calma. Técnicas simples como respirar profundamente, ouvir música, alongar-se ou tomar um banho quente ajudam a reduzir a tensão e acalmar o corpo e a mente.
  9. Evitar conteúdos que causem sofrimento. Reduzir o contato com notícias ou informações que tragam angústia, especialmente as relacionadas ao que aconteceu, pode proteger a saúde emocional.

Lembre-se: essa experiência foi uma situação específica, que não resume quem você é!

Além disso, se distrair não é “fugir do problema”, às vezes, é dar ao seu cérebro uma pausa para se recompor. A paciência com o seu processo é fundamental.

E, mesmo que pareça difícil, você não precisa “dar conta sozinho(a)” para provar força. Aceitar ajuda é parte do caminho para retomar à rotina com mais alegria, sem o peso do que aconteceu.

Que tipo de apoio profissional posso buscar?

Sentir-se envergonhado ou culpado por estar enfrentando dificuldades após um evento traumático é comum, mas existem apoio e orientação disponíveis.

Você também pode dividir sua dificuldade com um(a) profissional da sua escola, ou um(a) médico(a), como um(a) pediatra, clínico(a) geral ou o(a) profissional da Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Esse profissional vai te escutar, entender o que está acontecendo e, se necessário, encaminhar você para um(a) psicólogo(a) ou psiquiatra, que são especialistas em saúde mental.

No SUS (Sistema Único de Saúde), você tem acesso gratuito a esses cuidados em locais como:

  • Unidades Básicas de Saúde (UBS): ponto de partida para receber orientações e encaminhamentos.
  • Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): serviços especializados para adolescentes que precisam de mais apoio emocional.
  • Ambulatórios e hospitais públicos: em algumas cidades, oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.

O mais importante é não esperar até o sofrimento ficar insuportável. Buscar ajuda cedo evita que as lembranças ruins tomem conta da sua rotina e ajuda a reconstruir a sensação de segurança.

Apoio profissional não é só para “quem não aguenta mais”, é para qualquer pessoa que queira viver com mais leveza depois de algo que machucou.

Guias de Bolso

Ter lembranças ou sentimentos ruins sobre uma experiência muito estressante

Onde encontrar
mais informações

Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.

O que você
achou dos guias?

Conte pra gente o que você achou dos guias! Sua opinião pode nos ajudar a melhorá-los. Existe algum tema que você procurou e não achou?

Eu sou: