Ter dificuldades com o peso, hábitos alimentares ou com a forma do corpo
Este guia foi preparado especialmente para todas as pessoas que cuidam de crianças e adolescentes, e que se preocupam com a saúde mental deles. Se você é mãe, pai, avó, avô, tio, tia, madrinha, padrinho ou exerce qualquer papel de cuidado, aqui você encontrará informações acessíveis e úteis para apoiar quem está crescendo sob sua responsabilidade.
Comer é um momento de nutrição e prazer, mas para algumas crianças e adolescentes a relação com a comida e com o próprio corpo vira motivo de preocupação e sofrimento.
A alimentação é fundamental para garantir energia, crescimento saudável e qualidade de vida. Mas ela também carrega um importante aspecto emocional e social: muitas famílias se conectam ao redor da mesa, amigos compartilham refeições na escola, e até entre colegas de trabalho a comida fortalece os laços.
Desde bebês, as crianças aprendem a se alimentar com o apoio dos cuidadores. Com o tempo, vão formando seus próprios hábitos, preferências e rotinas. Por isso, prestar atenção à forma como uma criança ou adolescente está comendo pode dar pistas importantes sobre sua saúde física e emocional.
O que é esperado?
A forma como crianças e adolescentes comem varia bastante. Isso depende da idade, do temperamento, da cultura da família, do ambiente e da fase de desenvolvimento.
Quando a comida está disponível e não há falta de acesso, alguns comportamentos alimentares são comuns entre crianças e adolescentes:
- Comer de 2 a 5 vezes por dia, com lanches entre as refeições, o que é natural e importante, já que o corpo deles precisa de mais energia.
- Comer mais em um dia e menos em outro, conforme o apetite e o nível de atividade.
- Ter preferências alimentares fortes ou evitar certos alimentos, por causa da textura, do cheiro ou do gosto.
- Repetir os mesmos alimentos que gostam e rejeitar novos, isso pode fazer parte do processo de adaptação a novos sabores.
- Ficar sem fome quando estão doentes, cansados ou estressados.
Esses comportamentos fazem parte do desenvolvimento. O mais importante é observar se a criança ou adolescente está:
- Comendo o suficiente para manter energia e crescer bem
- Tendo acesso a uma alimentação variada, com diferentes grupos de alimentos
- Relacionando-se com a comida de forma saudável, sem medo, culpa ou sofrimento
Ao longo da infância é comum passar por “fases alimentares”: em um período a criança come menos, em outro come mais.
Já na pré‑adolescência e adolescência, o corpo muda rápido e é natural que jovens prestem mais atenção ao espelho, façam comentários sobre peso ou busquem dietas da moda.
Muitas vezes, isso se resolve com orientação sobre alimentação equilibrada e atividade física saudável.
Quando devo me preocupar?
É hora de se preocupar quando a alimentação passa a causar sofrimento ou prejudicar a saúde física, o crescimento, as emoções ou a convivência com outras pessoas.
Fique atento se esses comportamentos acontecem com frequência, se duram várias semanas ou se vão ficando mais intensos com o tempo.
Em crianças menores de até 12 anos:
- Está comendo muito pouco e perdendo peso
- Come coisas que não são alimentos (como terra, papel ou sabão)
- Come demais com frequência a ponto de sentir desconforto físico
- Fica muito tempo sem comer ou recusa quase todos os alimentos
- Reage fortemente a texturas, cheiros ou gostos, dificultando a alimentação básica
Em crianças maiores e adolescentes:
- Come muito pouco, perde peso ou parece sempre estar de “dieta”
- Vai ao banheiro repetidamente logo após comer e pode apresentar sinais de indução ao vômito (por exemplo, barulhos de tosse/vômito, cheiro de vômito ou demora excessiva no banheiro).
- Come escondido ou muito rápido, sentindo desconforto físico depois
- Passa longos períodos sem se alimentar tendo acesso a alimentos
- Vomita sem motivo médico aparente
- Guarda comida ou possui embalagens escondidas no quarto
- Tem prisão de ventre frequente, sem causa médica
- Menstrua de forma irregular ou pára de menstruar no caso de meninas
- Usa laxantes, remédios para emagrecer ou se exercita de forma exagerada
Outros sinais importantes incluem:
- Preocupação constante com peso, calorias ou imagem corporal
- Verificar o corpo no espelho várias vezes por dia
- Sentir culpa ao comer
- Evitar comer na frente dos outros
- Passar muito tempo pensando em comida
- Seguir regras rígidas sobre o que pode ou não comer, sem orientação nutricional ou médica
Se esses comportamentos acontecerem na maior parte do tempo, durarem mais de duas semanas ou piorarem rapidamente, procure ajuda. Quanto mais cedo a intervenção, menores os riscos para a saúde física e emocional.
O que posso fazer para ajudar?
Se você está preocupado com a alimentação, o peso ou a imagem corporal do(a) seu(sua) filho(a), saiba que há atitudes simples e importantes que podem fazer diferença no dia a dia.
Aqui vão algumas sugestões:
- Converse e escute com atenção. Pergunte como seu(sua) filho(a) está se sentindo. Você pode dizer, por exemplo: “Tem algo te incomodando na hora de comer?” ou “Você anda preocupado com seu corpo?”
- Mostre que você está por perto. Mesmo que os comportamentos pareçam difíceis de entender, evite críticas ou broncas. Diga que está ali para apoiar e ajudar a encontrar caminhos possíveis juntos.
- Crie rotinas tranquilas para as refeições. Tente manter horários regulares para comer e, sempre que possível, fazer pelo menos uma refeição em família. Evite distrações como celular ou TV à mesa, criando um momento mais calmo e conectado.
- Ofereça uma alimentação variada. Tenha opções saudáveis em casa, mas sem exagerar em regras ou proibições. Incentive a experimentar novos alimentos, respeitando os limites e preferências.
- Evite falar de dietas ou da aparência física. Comentários sobre peso, calorias ou corpos – seu, de outras pessoas ou do(a) seu(sua) filho(a) – podem aumentar a insegurança e dificultar a relação com a comida.
- Observe mudanças no comportamento. Fique atento se seu(sua) filho(a) começa a evitar refeições, comer escondido, usar roupas muito largas ou falar mal do próprio corpo com frequência.
- Guarde medicamentos em local seguro. Mantenha remédios, especialmente laxantes ou inibidores de apetite, fora do alcance do(a) seu(sua) filho(a). Não use esse tipo de produto sem orientação médica.
Se houver acompanhamento profissional, siga as orientações em casa e mantenha diálogo aberto com a escola.
Que tipo de apoio profissional posso buscar?
Alguns cuidadores podem sentir vergonha ou culpa caso seu(sua) filho(a) tenha dificuldades com hábitos alimentares.
No entanto, é fundamental lembrar que nem cuidadores e nem as próprias crianças ou adolescentes têm culpa. Para isso, existe ajuda.
É possível buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde a equipe de saúde pode fazer o primeiro acolhimento e encaminhar para serviços especializados, se necessário.
Outras formas de atendimento também estão disponíveis em:
- Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): oferecem atendimento contínuo e especializado para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico mais intenso.
- Centros de Especialidades Médicas e Psicossociais: presentes em algumas cidades, com equipes multiprofissionais.
- Ambulatórios de hospitais universitários ou regionais: muitas vezes oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.
Profissionais de saúde mental podem ajudar tanto a criança quanto os cuidadores. Eles trabalham junto com a família, oferecendo estratégias para lidar com os sintomas em casa, na escola e durante o tratamento.
Onde encontrar
mais informações
Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.
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