Repetição de ações ou rotinas
Este guia foi preparado especialmente para todas as pessoas que cuidam de crianças e adolescentes, e que se preocupam com a saúde mental deles. Se você é mãe, pai, avó, avô, tio, tia, madrinha, padrinho ou exerce qualquer papel de cuidado, aqui você encontrará informações acessíveis e úteis para apoiar quem está crescendo sob sua responsabilidade.
Algumas crianças e adolescentes apresentam um padrão de comportamento marcado por repetição: gostam de fazer sempre as mesmas coisas, na mesma ordem, e ficam muito desconfortáveis com mudanças.
Podem repetir movimentos como balançar o corpo, bater as mãos, andar em círculos ou alinhar objetos de maneira muito específica.
Para essas crianças, repetir pode ser uma forma de se acalmar, organizar o mundo à sua volta ou sentir prazer com o ritmo e a previsibilidade da ação. Essas repetições podem parecer estranhas para quem observa, mas para quem as pratica, fazem sentido e cumprem uma função importante.
O mesmo acontece com a rigidez nas rotinas: uma mudança no trajeto para a escola, uma refeição servida fora do horário ou uma troca repentina de atividade pode gerar forte angústia.
O que é esperado?
É natural que crianças pequenas gostem de repetir histórias, brincadeiras ou até frases que aprenderam recentemente. Essa repetição faz parte do desenvolvimento e ajuda na aprendizagem. Elas também podem se apegar a rotinas porque isso dá segurança.
Veja o que costuma aparecer em cada idade:
- Bebês: Gostam de alguns objetos e fazem movimentos repetidos, como balançar ou mexer as mãos.
- Crianças pequenas: Têm brinquedos ou histórias preferidas e gostam de seguir a mesma rotina (por exemplo, sempre dormir do mesmo jeito, ou ter uma mantinha preferida na hora de descansar).
- Crianças em pré-escola (educação infantil): É comum repetir brincadeiras de faz de conta, guardar ou colecionar objetos, ou desenvolver um grande interesse por um tema específico, por exemplo, aprender tudo sobre carros e identificar diferentes marcas.
- Crianças maiores: Podem se interessar muito por um tema ou hobby e querer fazer sempre a mesma coisa. Também podem querer que tudo aconteça do mesmo jeito, todos os dias, e ter um grande conhecimento sobre um assunto de que gostam bastante.
Quando devo me preocupar?
Apesar de haver alguns interesses restritos e comportamentos repetitivos que possam ser comuns com crianças e adolescentes, interferências e prejuízos em diversas áreas da vida causados por esses fatores merecem atenção. Veja alguns sinais importantes:
Interesses restritos:
- Interesse fixo: A criança pode se concentrar de forma intensa em um tema ou atividade específica, falando sobre isso o tempo todo, querendo repetir sempre o mesmo jogo ou vídeo, ou buscando saber todos os detalhes de um único assunto.
- Apego a objetos incomuns: Em vez de brinquedos ou materiais usuais, a criança pode criar um forte vínculo com objetos diferentes, como uma escova, uma tampa de garrafa ou um elástico de cabelo, carregando-os para todos os lugares e ficando muito incomodada se não puder usá-los ou segurá-los.
Apego a rotinas:
- Dificuldade com mudanças: A criança se irrita ou se desorganiza se algo sai da rotina.
- Dificuldade de adaptação: Trocar de atividade ou lidar com novidades pode ser mais difícil do que para outras crianças.
- Regras rígidas: A criança pode se incomodar muito se alguém não segue uma regra “do jeito certo”.
Comportamentos repetitivos:
- Movimentos repetidos e frequentes: Como bater as mãos, mexer os dedos ou balançar o corpo.
- Organizar objetos: A criança sente necessidade e não consegue evitar de alinhar ou classificar objetos de uma certa forma.
- Girar ou alinhar brinquedos: Gosta de girar tampas ou enfileirar brinquedos repetidamente.
Sensibilidades sensoriais:
- Sons: Barulhos do dia a dia, como o de um aspirador de pó, secador de cabelo, buzinas ou até muitas pessoas falando ao mesmo tempo, podem ser muito incômodos.
- Luz: Luzes muito fortes podem incomodar bastante.
- Toque e roupas: Certos tecidos, costuras ou etiquetas podem incomodar tanto que a criança se recusa a usar aquela roupa. Até um toque inesperado pode gerar desconforto.
- Cheiros e sabores: Odores de perfumes, produtos de limpeza ou alguns temperos podem ser difíceis de tolerar. Sabores fortes também podem gerar rejeição.
- Comida: A criança pode evitar alimentos com certas texturas, cores ou cheiros.
Quando a rigidez e as repetições persistem de forma intensa, interferem na rotina familiar ou escolar e causam sofrimento, é sinal de que há algo além do esperado para a idade, e pode ser importante buscar orientação.
O que posso fazer para ajudar?
Como cuidador(a), é essencial ter paciência e oferecer apoio. Lembre-se que para a criança, qualquer mudança pode ser difícil e causar mal estar.
Aqui vão algumas estratégias que podem ajudar:
- Reduza a ansiedade: Crie um ambiente calmo, fale com voz suave e evite interromper a brincadeira da criança de forma brusca.
- Tenha uma rotina estruturada: Rotinas previsíveis trazem segurança. Se precisar mudar algo, avise com antecedência, explique o porquê da mudança e como essa adaptação pode ser positiva para ela.
- Evite sobrecarga sensorial: Diminua ruídos altos, evite luz forte e priorize o uso de roupas confortáveis.
- Não interrompa bruscamente os comportamentos repetitivos: Muitas vezes, esses comportamentos ajudam a criança a lidar com o estresse. Evite punições.
- Aproveite os interesses da criança: Use os temas que ela gosta para brincar, conversar ou apresentar gradualmente novas atividades.
- Ofereça escolhas: Dentro de uma atividade estruturada, permita que a criança escolha entre duas opções. Pode ser com roupas, brinquedos ou mesmo alimentos. Isso dá mais autonomia e reduz a resistência.
- Elogie quando houver flexibilidade: Quando a criança tenta algo novo ou aceita uma mudança, reconheça e elogie de forma clara e positiva.
Se você já tentou essas dicas e as dificuldades continuam ou atrapalham o dia a dia, pode ser hora de buscar ajuda especializada.
Que tipo de apoio profissional posso buscar?
Se você nota que esses comportamentos causam impacto na rotina da criança, é importante conversar com um profissional. A escola também pode ser uma parceira nesse processo. Uma ação precoce pode ajudar bastante no bem-estar e no desenvolvimento da criança.
Fale com o(a) professor(a), ou com um(a) psicólogo(a) escolar caso ele(a) exista na escola da criança. Também converse com o(a) pediatra ou médico(a) da família da criança. Eles podem encaminhar você para outros especialistas necessários ou para uma avaliação.
É possível buscar atendimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde a equipe de saúde pode fazer o primeiro acolhimento e encaminhar para serviços especializados, se necessário.
Outras formas de atendimento também estão disponíveis em:
- Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS i): oferecem atendimento contínuo e especializado para crianças e adolescentes com sofrimento psíquico mais intenso.
- Centros de Especialidades Médicas e Psicossociais: presentes em algumas cidades, com equipes multiprofissionais.
- Ambulatórios de hospitais universitários ou regionais: muitas vezes oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito.
Profissionais de saúde mental podem ajudar tanto a criança quanto os cuidadores. Eles trabalham junto com a família, oferecendo estratégias para lidar com os sintomas em casa, na escola e durante o tratamento.
Lembre-se de que o objetivo da ajuda profissional não é “eliminar” totalmente as repetições, mas entender o que elas expressam e ajudar a criança a desenvolver outras formas de lidar com o mundo à sua volta.
Onde encontrar
mais informações
Saiba como funciona o SUS para saúde
mental de crianças e adolescentes.
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