Ao infinito e além, com um novo perigo pela frente
Apesar da crescente conscientização sobre os prejuízos causados à saúde pelo uso excessivo de aparelhos eletrônicos, sobretudo no desenvolvimento de crianças e adolescentes, as pessoas gastam em média nove horas diárias na internet, como aponta um recente relatório global. Afinal, como explicar isso?
Foi da busca por essa resposta que nasceu a reportagem “Hiperestimulação e autodiagnósticos: como as telas afetam a saúde de crianças e adolescentes”, norteada por duas preocupações: ir além do senso comum e não culpabilizar pais e responsáveis.
Para crianças de 2 a 5 anos, por exemplo, a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que o uso de telas não extrapole uma hora diária, sempre com supervisão. No entanto, essa orientação não costuma ser seguida pelas famílias.
Especialistas ouvidos pela reportagem colocam em debate fatores como a jornada de trabalho dos pais e a falta de acesso a opções de lazer, como ir ao parque e jogar bola. Enfim, brincar e se divertir, de preferência com outras crianças, usando o corpo, e não apenas os dedos e alguns poucos sentidos, no caso a visão e a audição, se torna cada vez mais raro na infância.
Muitos adultos alegam que deixar a criança em casa na companhia de telas é uma forma de propiciar segurança, evitando os perigos das ruas. Mas as ameaças contidas nos smartphones e tablets são significativas também. Quem já assistiu à série Adolescência, baseada em fatos reais, sabe do que estou falando.
Educativo ou hiperestimulante?
Além disso, conteúdos tidos como educativos podem causar emburrecimentos, fazendo com que a criança se acostume e vá atrás sempre do mesmo estímulo. Isso porque, principalmente até os 3 anos de idade, a pessoa não consegue transpor o conhecimento das telas, que é 2D, para a realidade concreta, em 3D. Sem falar que a hiperestimulação favorece sintomas como impaciência, crises de raiva e atrasos na linguagem.
Após a publicação da minha matéria, um lançamento no universo do cinema e do entretenimento reforçou a relevância do tema: a divulgação do trailer de Toy Story 5. Que criança da minha geração não cresceu com as aventuras de Woody e Buzz Lightyear, imaginando que os brinquedos ganhavam vida quando ninguém estava vendo? Fato é que, no novo longa-metragem, previsto para estrear em junho de 2026, o grande vilão da história não é mais um urso, mas sim, pasmem, um tablet.
A crítica social fala por si — e conversa com a hiperestimulação e, consequentemente, os autodiagnósticos. As crianças de hoje em dia estão perdendo as bonecas e carrinhos e, cada vez mais cedo, ganhando eletrônicos. A consequência se observa, de forma ainda mais acentuada, nos prognósticos para o futuro.
Um diagnóstico para chamar de seu
Foi a partir desse pensamento que surgiu a segunda parte da reportagem: os autodiagnósticos em adolescentes. Quem nunca rolou a seção For You do TikTok e se deparou com um vídeo curto listando sintomas que, se você observar em si mesmo, significa que tem tal doença? Conteúdos como “abaixe um dedo se você têm tal sintoma” se tornaram muito comuns nas redes sociais. O resultado é que jovens se deparam com esses vídeos nas telinhas e, sem procurar orientação médica, concluem que têm a doença em questão, muitas vezes pela necessidade de pertencer a um grupo. Tenho um diagnóstico, logo existo.
A proposta da matéria, então, foi averiguar se aquela criança que crescia imersa nas telas se tornaria uma adolescente que busca se enquadrar no conteúdo que consome. Os especialistas se esquivavam dessa hipótese, alegando falta de estudos concretos para estabelecer essa relação. Foi um desespero para mim, porque a causalidade me parecia óbvia. Como invariavelmente acontece em qualquer produção, eu temia que a matéria não fosse sair, que desse errado. Contudo, entendo que, para o jornalista, como para o cientista, é importante respeitar o tempo das pesquisas, evitando conclusões precipitadas, mas sempre levantando ideias.
Um fato inegável, no entanto, é que muitos adolescentes procuram um diagnóstico, quase sempre relacionado à saúde mental, como TDAH, e as redes favorecem esse comportamento. Um artigo recente analisou como os algoritmos do TikTok atuam nessa tendência dos autodiagnósticos. A conclusão, tanto do artigo quanto da minha apuração, é que a lógica de distribuição e entrega de conteúdos na plataforma reforça a busca por um transtorno. Como? Entregando conteúdos desse tipo à noite, quando a pessoa está mais vulnerável, geralmente sozinha e reflexiva.
O combate a esse inimigo contemporâneo não está restrito às aventuras de Woody e Buzz. Cuidadores, educadores, políticos, os próprios adolescentes, enfim, toda a sociedade precisa achar um jeito de minimizar os efeitos negativos, buscar alternativas para driblar essa realidade, já que seria uma utopia cogitar um mundo sem telas. Não se trata de culpar, mas sim de se responsabilizar e agir.
Isabela Daudt, 20 anos, estuda Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, quer se especializar na cobertura de Saúde e já escreveu matérias sobre o tema. Sua reportagem “Hiperestimulação e autodiagnósticos: como as telas afetam a saúde de crianças e adolescentes”, em co-autoria com Ana Carolina Nascimento e Júlia Campos, ganhou o segundo lugar no 5º Prêmio de Comunicação José Luiz Setúbal.
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5 de Janeiro, 2026Você tem alguma história ou experiência inspiradora sobre saúde mental?
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