A importância de aceitar quem
somos, sem medo de julgamento
nem de ser diferente

Nossas Vozes

5 de Setembro, 2025
Conversa franca sobre saúde mental com as irmãs Ruiz traz à tona mensagens de esperança e resiliência para outros adolescentes e pré-adolescentes ao redor do mundo

Crescer não é fácil. Entre equilibrar cuidados com a saúde mental, reflexões sobre identidade, comparações, estresse, redes sociais e a necessidade de se conformar, o caminho pela adolescência traz desafios reais para os jovens de hoje. Para as irmãs Heloísa (14 anos) e Estela Ruiz (12), de São José dos Campos (SP), aprender a lidar com essas mudanças revelou uma verdade poderosa: a chave está na autoaceitação.

Por meio de uma conversa honesta sobre saúde mental na juventude, elas revelam que estão rompendo estigmas e transformando desafios pessoais em mensagens de esperança e resiliência para outros jovens ao redor do mundo.

Heloísa

Quando somos crianças, não nos preocupamos muito com o que os outros pensam. Somos apenas nós mesmos, com nossa própria personalidade, sem ligar para comparações. Mas conforme crescemos, especialmente na pré-adolescência, as coisas começam a mudar. Entre o sexto e o sétimo ano, por volta dos 12 ou 13 anos, pode ser uma fase bem desafiadora. É uma transição para a adolescência e tudo parece mais intenso. O ambiente se torna mais tóxico porque existe uma pressão enorme para alcançar uma espécie de perfeição — um ideal que nem existe.

Estela

A gente se sente um pouco perdida, tentando entender o que precisa ser para se encaixar como adolescente, enquanto percebe que já não é mais criança. Isso cria uma carga mental muito grande. Algumas pessoas tentam parecer mais velhas, mudando o jeito de se vestir e de se comportar, enquanto outras ainda se agarram ao espírito da infância, querendo brincar e se divertir como antes.

Heloísa

O problema é que o ambiente nos influencia muito. O julgamento dos outros faz muita gente se sentir pressionada a mudar, mesmo que isso não seja o que querem de verdade. É como se precisassem se encaixar em um molde para serem aceitas. Mas algo que percebi é que depois dos 14 anos, essa pressão começa a diminuir. Passamos a ligar menos para essa necessidade de aprovação e percebemos que não precisamos seguir um padrão imposto. Olhamos para pessoas mais velhas e entendemos que, no fim das contas, isso não era tão importante quanto achávamos. E quando percebemos que as crianças mais novas nos veem do mesmo jeito que nós víamos os adolescentes, entendemos que tudo isso faz parte de um ciclo.

Em busca da perfeição

Heloísa

Outras formas de pressão para mim vieram do balé, que no início eu achava interessante, mas ao mesmo tempo não era algo que eu fazia porque realmente amava. Eu treinava de segunda a sexta e, em certo ponto, começou a ficar demais para mim. Era tanta coisa que eu sentia que estava perdendo experiências que uma criança deveria ter. Eu não tinha tempo para brincar ou simplesmente curtir a escola, porque tudo girava em torno do balé. E para piorar, o ambiente não era legal. Além da pressão dos treinos, havia muita competição entre as alunas — o que só deixava tudo mais difícil.

Com o tempo, percebi que aquilo estava me fazendo mal. Em vez de ser algo que me deixasse feliz, estava me deixando cada vez mais cansada e triste. Eu me sentia sobrecarregada. Até as tarefas mais simples do dia a dia ficavam difíceis, porque minha mente estava sempre presa naquela rotina.

Eu ficava pensando o tempo todo: “Amanhã tenho aula de balé, preciso me preparar, preciso ir bem…” E aquilo me consumia. A competição só piorava essa pressão, porque parecia que eu nunca podia errar, nunca podia ser menos do que perfeita. No fim, era pressão demais para alguém da minha idade. Dançar deveria ser algo divertido e leve, mas para mim tinha virado um peso.

Autoimagem e comparação

Estela

As pessoas criam um ideal — como você deve agir, como deve se vestir, como seu corpo deve ser, até como você deve pensar. E se a gente para para analisar, nada disso faz muito sentido. Mas mesmo assim, todo mundo tenta se encaixar nesse molde. A gente se compara o tempo todo e coloca um peso enorme nas costas, acreditando que precisa ser de um certo jeito, igual a outra pessoa, como se isso fosse o mais importante. Mas, na realidade, não é. Só que, naquele momento, ninguém percebe isso.

"Tudo isso realmente afeta nossa saúde mental, porque a comparação e a pressão se tornam inevitáveis. Quando éramos crianças, nada disso importava. Éramos apenas nós mesmos, sem nos preocupar com o que os outros pensavam."

- Estela Ruiz tem 12 anos e é de São José dos Campos (SP). Ela adora ler histórias de romance, escrever sobre seus pensamentos e seus dias, e ouvir música.

Heloísa
Acho que o maior desafio para os adolescentes hoje em dia é a comparação. Nessa fase da nossa vida, parece que estamos sempre sendo observados e julgados. A gente se importa tanto com a nossa imagem, com o que os outros pensam, que sem perceber começamos a mudar quem somos só para evitar críticas. E isso se torna muito tóxico, porque ninguém consegue simplesmente ser quem é sem essa pressão constante.

Estela
Com o tempo, acho que entendemos que não precisamos ficar mudando o tempo todo só para nos encaixar. Podemos simplesmente ser quem somos, sem toda essa pressão.

Heloísa
O ambiente se torna mais tóxico porque todo mundo está tentando alcançar um nível de perfeição que nem existe. A pressão está sempre ali, mas depois dos 14 anos, ela começa a diminuir um pouco, eu acho. A gente começa a perceber que não precisa provar nada para ninguém e que, no fim das contas, nada disso era tão importante quanto a gente pensava. Quando éramos crianças, olhávamos para os adolescentes como se fossem incríveis — o jeito que se vestiam, o jeito que falavam… Mas quando finalmente chegamos nessa fase, percebemos que não é bem assim. E o mais engraçado é que, enquanto estamos nos esforçando tanto para alcançar esse “ideal”, as crianças mais novas começam a nos admirar do mesmo jeito que nós admirávamos os adolescentes. No fim, é só um ciclo.

Pressões do ambiente

Estela
E tem pessoas que simplesmente não querem ir nessa onda toda, sabe? Elas não estão preocupadas em parecer mais velhas, em se vestir diferente ou tentar agir como adultos antes da hora. Algumas pessoas ainda têm aquele espírito de criança — ainda gostam de brincar na rua, de fazer as coisas que sempre fizeram. Mas o problema é que as pessoas ao redor criam tanta pressão sobre como “deveríamos” ser que fica difícil simplesmente sermos nós mesmas.

No fim das contas, muita gente acaba se forçando a mudar — não porque quer, mas por medo de ser julgada. É como se existisse uma regra não escrita de que você precisa crescer rápido, agir de um certo jeito, se vestir de um certo jeito… Mas e se você só quiser ser você mesmo? Parece que todo mundo está fingindo que cresceu, quando, no fundo, ainda só quer brincar.

Redes sociais e padrões irreais

Heloísa
Estamos sempre vendo o que os outros estão fazendo. Estamos sempre conversando, acompanhando a vida uns dos outros… Não para. Antes, quando não existiam celulares, as coisas eram diferentes. Tipo: você saía da escola na sexta-feira, ia para casa, fazia suas coisas e só na segunda contava para seus amigos o que havia feito no fim de semana. Era algo mais privado, mais pessoal.

Estela
Hoje, qualquer pessoa pode saber o que eu fiz — até quem não é meu amigo. E ao mesmo tempo, eu também posso ver o que todo mundo fez, até completos desconhecidos. Então isso vira um ciclo sem fim de comparações. Acho que, para mim, essa é a maior pressão — ver tudo isso o tempo todo e me comparar constantemente.

Isso acontece o tempo inteiro, em tudo — não é só sobre notas na escola, mas também sobre estilo de vida, aparência… basicamente qualquer coisa. Parece que estamos sempre tentando alcançar um padrão que, na maioria das vezes, nem é real. E acho que as redes sociais têm um papel enorme nisso. Temos acesso a tanta coisa o tempo todo que acabamos nos comparando sem nem perceber.

Heloísa
Eu e a Estela, por exemplo. Se alguém olhar nosso Instagram e vir o que postamos, não está vendo a realidade. Não tem nada lá sobre os dias em que nos sentimos mal, ou os momentos em que achamos que estamos feias… Só aparecem as melhores partes: as fotos dos lugares bonitos que visitamos, os momentos em que tudo pareceu perfeito.

Estela
E o mais louco é que a gente sabe que não é real. Sabemos que nem o que mostramos da nossa própria vida é o quadro completo. Mas mesmo assim, quando olhamos o perfil de outras pessoas, aquilo parece real. E aí vem o pensamento: “Nossa, minha vida não é tão legal quanto a delas.” Acho que é isso que mais nos afeta. E o celular só piora, porque estamos sempre olhando para tudo isso sem perceber o quanto nos impacta.

Heloísa
No fim, o essencial é aceitar quem somos sem medo do julgamento. Cada um tem seu próprio tempo, sua própria fase, e não há nada de errado em ser diferente.

"No fim das contas, o essencial é aceitar quem somos sem medo de julgamento. Cada pessoa tem seu próprio tempo, sua própria fase, e não há nada de errado em ser diferente."

- Heloísa Ruiz tem 14 anos e é de São José dos Campos (SP). Ela gosta de passar tempo com as amigas, adora jogar vôlei e ler livros de romance e aventura.

Nossas Vozes

5 de Setembro, 2025

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