A consciência negra e o peso silencioso na saúde mental

Nossas Vozes

21 de Novembro, 2025
Quando alguém é desrespeitado por causa da cor da pele, o cérebro entende como ameaça. Corpo e mente entram em estado de alerta. Por isso tanta gente negra sente medo, angústia, desânimo, cansaço. Por João Pedro Santos Schroder
Para Zitto, o isolamento provocado pelo racismo mexe com a cabeça, a autoestima e o modo como a pessoa se enxerga; foto: arquivo pessoal

O racismo provoca traumas que podem se desdobrar em questões de saúde mental. Muita gente ainda não percebe que o preconceito não fere só a dignidade, mas também o aspecto emocional. Viver em um país que insiste em negar o racismo é, para quem é negro, uma experiência constante de esgotamento. É carregar o peso de provar o tempo todo que se é capaz, digno, que se pertence. E isso cansa. Cansa o corpo, a mente, o espírito.

Eu cresci em Timbó, no interior de Santa Catarina, uma cidade pequena, de colonização alemã e italiana, onde a branquitude é regra e a diferença se torna alvo. Ser negro ali sempre foi algo que chamava atenção, não porque eu fazia algo de errado, mas simplesmente por existir. Aprendi a rir de piadas que me feriam, a não responder comentários racistas para evitar confusão, a engolir pequenas violências que se acumulavam dentro de mim como pedras. Ninguém me ensinou como lidar com isso. A gente aprende a resistir, mas não aprende a descansar.

O racismo não é só o ato de discriminar. É também o ambiente inteiro que te faz duvidar de si mesmo. É o silêncio das instituições, a ausência de representatividade, a falta de acolhimento psicológico e o descaso quando pedimos ajuda. É crescer sem referências, é estudar histórias em que o povo negro só aparece como escravo, é entrar em espaços e ser o único da sua cor. Esse isolamento constante mexe com a cabeça, com a autoestima e com o modo como a gente se enxerga.

Isso não é coincidência. O racismo é uma forma de violência contínua, e a violência deixa marcas. Quando alguém é desrespeitado por causa da cor da pele, o cérebro entende aquilo como uma ameaça. E quando essa ameaça é repetida ao longo de anos, o corpo e a mente passam a viver em estado de alerta. É por isso que tanta gente negra sente medo, angústia, desânimo e, às vezes, um tipo de cansaço que não passa nem com sono. E o racismo está também presente em locais feitos para o cuidado. Quando os profissionais não são treinados para entender essa dor, podem contribuir para deixá-la ainda pior.

O impacto vai muito além do indivíduo. A saúde mental abalada de uma pessoa negra afeta também sua família, seus filhos, suas relações e seus sonhos. Quantas vezes uma mãe negra ensina o filho a abaixar a cabeça diante de uma abordagem policial, não por submissão, mas por medo de vê-lo morrer? Quantos pais negros vivem frustrados por não conseguirem oportunidades que outros têm com facilidade? Quantos jovens negros desistem da escola por não suportarem o ambiente hostil? Essas dores se acumulam de geração em geração.

Questão de sobrevivência

Por isso é tão urgente que a consciência negra vá além do discurso de novembro. Ela precisa se tornar uma prática diária, uma consciência coletiva de que a igualdade não é só um ideal, é uma necessidade de sobrevivência. Combater o racismo é também cuidar da saúde mental de um povo inteiro. É criar espaços de escuta, promover terapias acessíveis, capacitar profissionais que compreendam as especificidades da experiência negra. É permitir que a população negra possa falar sobre dor sem ser chamada de vitimista, e sobre conquista sem ser acusada de exagero.

A luta pela consciência negra é, no fundo, uma luta por equilíbrio, paz, humanidade. É querer viver num país onde a cor da pele não defina quem vai sofrer mais, quem vai ser mais cobrado, quem vai precisar ser mais forte. E até que isso aconteça, é preciso lembrar: cuidar da mente negra também é um ato político. É resistência, é autocuidado, é revolução silenciosa. Porque nenhum povo pode florescer completamente enquanto carrega o trauma de ser questionado por existir.


João Pedro Santos Schroder, o Zitto, tem 18 anos e é membro do Juntô Jovem, um comitê juvenil coordenado pelo IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e pelo Juntô, a Iniciativa Brasileira de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes da Stavros Niarchos Foundation no Child Mind Institute. Zitto é autor do projeto de lei 0040/2022, que instituiu a Semana Municipal da Cultura Negra em sua cidade-natal, Timbó (SC), quando tinha o cargo de Vereador Jovem. 

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21 de Novembro, 2025

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